17/11/2008
-15:21
O lançamento vai pegar fogo! (Tudo confirmado, mesmo batlocal e hora)
Conspiração ou não, forças sobrenaturais ou terrenas, está tudo confirmado para o lançamento do livro, amanhã, na Travessa de Ipanema. Autógrafos defumados e salgadinhos ok (o serviço de cathering independe da cozinha da livraria, a única afetada). Depois do fogo, vamos bombar mais ainda!

15/11/2008
-9:01
É impossível transpor as águas do destino
Por Arnaldo Bloch
(Publicado este sábado no Segundo Caderno)
Há um hino ayahuasqueiro que descreve
com extremo lirismo e forte simbologia as
“mirações” provocadas pelo poderoso
chá, indígena na origem, hoje pertencente
a uma comunidade muito maior e multifacetada.
Poderia procurar a letra do hino (de autoria de
gente do Daime), mas prefiro trazer aqui a minha
lembrança das imagens que a canção evocava e
que iam de encontro com uma série de percepções
anteriores. Na cadência dos versos, me vejo suspenso,
envolvido por uma trama de vegetação, de
tal maneira que me confundo, eu, com a própria
floresta, estou nela e sou ela sem deixar de ser um
indivíduo. Num primeiro momento, esta sensação
de pertencimento e imobilidade provoca um baita
incômodo, que pode derivar para o medo e até o
pânico: quero sair dali, olhar para o outro lado, subir,
descer, cair, voar, mover o corpo. Mas eis que,
abaixo deste ponto de suspensão onde me encontro
assim atado à floresta, passa um rio, um rio sereno
mas cheio, constante em seu discreto vigor, e
logo se estabelece um paradoxo entre a situação
do indivíduo/totalidade (estática) e o fluxo do rio
(movimento pleno, extensão, rumo, variedade topológica).
Então, este ser que sou, gêmeo xifópago
de folhas e raízes e seivas que se fazem teias, restrito
em meu nicho do grande bordado, este ser
condenado a pertencer — ao ouvir o rio que passa
lá embaixo (só ouvir, pois estou limitado a mirar
apenas o entorno verde), este ser ganha enfim a
consciência e vence o medo, daí o refrão, conforme
me recordo: “É só a realidade/Não tem para onde
fugir”. Lembro-me, mirando que estava, sob efeito
do chá, de ter experimentado um profundo alívio
diante deste belo refrão: pois estou, e estamos,
mesmo, todos, atados à totalidade, enquanto o rio
passa — como aquilo que chamamos de destino,
no sentido do movimento do tempo, da seqüência
percebida, escrito ou não escrito, passagem da vida.
Era um alívio que passava pela aceitação: não
posso, não podemos, fugir à realidade, estática, e
nossa capacidade de ir e vir é mais ilusória do que
gostaríamos de crer. Ao aceitar minha limitação de
movimento, imediatamente as expectativas em excesso,
as ambições desmedidas, o lixo da vaidade,
tudo vira poeira e vai embora junto com o rio que
corre. Ao alívio segue-se o amor pelo que sou (somos),
e até parece que aquela trama florestal se
desfaz por um momento, ou melhor, se expande,
em deliciosa entropia, desordem absoluta. Pois sei
que tenho, e temos, nosso grau de movimento autônomo,
temos nossa liberdade, nosso caos, mas
ele se comuta, em paralelo, eternamente, com a
mais absoluta imobilidade. Tudo é assim: a Terra
singra o vácuo e nem por isso somos lançados ao
espaço: estamos aqui, atados pela gravidade. Como
uma boneca russa, da menor para a maior, o tal
planeta encontra-se relativamente imóvel em relação
a um sistema, que encontra-se relativamente
imóvel em relação a uma galáxia, idem em relação
ao Cosmo e o resto é desconhecido, mas se houve
uma explosão no início dos tempos, estamos ainda
atados a ela e à sua marcha, ela é o rio, ela ainda
move a totalidade, mas seus componentes, num
sentido mais abrangente, relativo, não se movem
nunca. Curiosas são, aliás, as razões que me levaram
a recordar esta última vez em que tomei o chá,
coisa de um ano atrás, se tanto: a memória da miração
e da canção veio quando guiava na entrada
do Túnel Rebouças, direção Zona Norte. Não exatamente
a entrada, mas aquele preâmbulo, quando
os carros mergulham na expectativa de alcançá-lo.
Com o trânsito bom ou ruim, é um momento que
soa sempre eterno, como uma suspensão, um suspense.
Claro que chegaremos ao túnel e talvez cheguemos
rápido, mas aquele “estar” no prelúdio é
infinito, permanece, e cada vez que se repete, por
força da irremediável rotina, essa permanência se
reforça, loquaz: chegaremos ao nosso destino, percorreremos
o túnel, mas, num longo prazo, jamais
sairemos dali, daquele mergulhão, daquela expectativa.
Vêm-me à memória também o relato de um
amigo que viaja muito pelo mundo e prefere sempre
que possível voltar de navio, pois, cada vez que
o jato se aproxima, digamos, de mil quilômetros de
distância do Rio de Janeiro, ele é tomado por uma
angustiada certeza de que jamais pousará, de que a
distância se reduzirá eternamente, e, ainda que
atinja proporções infinitesimais, ele não verá a terra,
pois o zero absoluto nunca chega, a não ser
quando se morre — e o rio corre, segue e a gente
nunca mais se saberá planta outra vez.
11/11/2008
-22:48
Dois PMs dormindo
Agora há pouco, numa esquina estratégica, entrada de um bairro estratégico e visado (não vou dizer qual nem onde por que não sou dedo-duro), patrulhinha com dois PMs dormindo, um de boca aberta e cabeça no espaldar, outro de boca fechada e cabeça caída. Não podia ser um só dormindo e o outro acordado? Tipo piloto e co-piloto em avião? Putz. Fiquei preocupado não apenas pela segurança do tal bairro, mas pela segurança da dupla de bravos soldados. Tem que ser bravo pra dormir assim no ponto numa cidade como o Rio. Ou então estar fazendo muita dupla-jornada e bico.
11/11/2008
-1:34
E o protocolo de Kyoto?
Obama vai fechar Guantanamo e rever 200 medidas de Bush. Será que entre elas está a recusa em aderir ao Protocolo de Kyoto? Ainda não vi este assunto ser ventilado na pauta de Obama. Vi outro dia o presidente eleito, em entrevista (reprisada, quando ainda era candidato) ao espetacular Jon Stewart no seu Daily Show (entrevista com lances engraçadíssimos, por sinal), falar sobre a complexidade de conciliar diferentes visões na questão ambiental e me deu a impressão de que sua posição será conservadora. Alguém que esteja por dentro me dê uma luz!
7/11/2008
-12:48
O blogueiro convida
Os leitores, amigos e inimigos para o lançamento, dia 18, do seu próximo livro, uma saga longamente gestada cujo convite segue abaixo. Nesta segunda, 10, tem uma prévia na Casa do Saber, quando conversarei com Carlos Heitor Cony e Rodrigo Fonseca (reservas pelo telefone 2227-2237, entrada gratuita). Os primeiros exemplares já estarão lá, e nas livrarias ao longo da semana, pra quem já quiser levar o livro lido pro lançamento.

5/11/2008
-13:40
Lula e sua expectativa sobre comércio exterior na era Obama: comédia
Às vezes Lula pira na batatinha de maneira inexplicável. Hoje, quando plantava uma árvore em homenagem a Obama, disse, numa lista de expectativas em relação ao novo presidente americano, que esperava que ele reduzisse os subsídios agrícolas e fortalecesse o comércio exterior. Cacilda! Obama, como seria natural, democrata que é, tem a tendência mais protecionista. Em tempos de crise cavalar, pode multiplicar isso por dez. Durante a campanha, prometeu proteger os empregos, foi contra a liberalização do comércio, repudiou as tentativas de Doha e deixou claro suas prioridades. A esperaça em torno de Obama é de uma era de melhores relações políticas entre os EUA e o resto do mundo, com diálogo em torno de ideais comuns, tentativa de melhores relações com Cuba e Venlenzuela, sem guerras insensatas, com maior respeito aos direitos humanos e ao meio-ambiente, observância de princípios fundamentais e acordos e leis internacionais, recuperação do terreno perdido no retrocesso dos últimos 8 anos etc. Mas em termos de comércio multilareral, a chapa vai ser ainda mais quente do que era com Bush e do que seria com McCain. Vem aí protecionismo brabo. De onde Lula tirou essa idéia? Será que, impregnado que é nosso presidente de preocupações com o capital, endenteu no sentido econômico o perfil liberal (no senso estrito, político, tradicional) de Obama? Ou será que foi uma declaração já permeada de discurso de barganha?
4/11/2008
-22:09
48 horas sem internet = Felicidade
Depois de uns cinco anos consumindo todos os meus períodos de férias em algum trabalho, principalmente o livro que enfim terminou (terminou é maneira de dizer, na prática, tá no prelo, mas nunca vai terminar de verdade), passei 48 horas em búzios não apenas sem levar o netebook como sem sequer me aproximar de qualquer ponto de internet. Incrível como sem o universo online a vida logo sorri, o corpo começa a funcionar melhor, o fôlego melhora, o sono melhora, o tesão melhora, tudo melhora. O que me leva a perguntar, numa boa, e com o maior respeito por este maravilhoso meio que é o cyberespaço com suas blogosfera e demais gadgets virtuais: o que é, afinal, que a gente está fazendo aqui?
Ps: A vingança não tardou. Ontem, a fonte fritou, a placa de vídeo idem e, de sobra, o velox saiu do ar e até a net ficou sem sinal. Só de pensar "é bom ficar um pouco foram da rede" e a rede já quer te matar quando você precisa dela. Teoria da conspiração pouca é bobagem.
Ps 2: Claro que vou passar a noite online numa conexão discada pré-histórica (neste momento, escrevo de uma Lan House, ui...) acompanhando a apuração. Se bem que a CNN pode quebrar o galho, a Net já voltou.
1/11/2008
-15:00
A Lapa em Urinas
Ensaio sobre nossa incontinência de cada noite
(Crônica publicada este sábado no Segundo Caderno)
Por Arnaldo Bloch
A Lapa voltou a ser a Lapa, se é que al-
gum dia deixou de ser. O samba está lá,
o choro lá está, o rock também está.
Bebe-se, come-se, pão, circo, fundição,
dança-se, dorme-se, fuma-se, e o amor se faz
de todas as formas, sem preconceitos, à von-
tade, como deve ser.
Turistas que sabem o que é bom perse-
guem, de um lado e de outro dos arcos, o pote
de ouro da felicidade. Intelectuais compreen-
dem o sentido agudo, profundo, da Lapa, bor-
délica, nosso Moulin Rouge, nosso cabaré,
nossa belle-époque.
Há, porém, um senão: a Lapa está, mais do
que jamais, inundada de urina, imunda de
amônia, amarelo xixichopp a cada metro qua-
drado, de fazer corarem os equinos mais
aquosos. Nem precisa ser sábado: numa quin-
ta, numa sexta, a gente pisa em poças quen-
tes, frescas, podres, com colarinho ou sem.
Nem Maracanã lotado é páreo para a Lapa de
hoje, maremoto de agente laranja.
Nas horas de pico, não passa meio minuto
sem que se aviste cidadão a esguichar olim-
picamente nos postes, nos carros, nas árvo-
res, ou sem apoio mesmo, no centro do pica-
deiro, com o perdão dos do trocadalho. Moças
também despejam suas águas à luz da noite:
fazendo uso do expediente da cortininha, aga-
cham-se sem grande constrangimento e, con-
fesso, até com certa graça.
A Lapa é, hoje, síntese, paroxismo, da nossa
incontinência pública, crônica, rasgada. Lado
a lado com a alegria, com a arte, com a paixão,
o fedor da Lapa desses dias é colossal, incom-
parável, inigualável em qualquer outra região
da cidade, do Brasil, quiçá do mundo.
A gente até abstrai em nome de nosso amor
por aquele logradouro, em nome do bar a que
nos destinamos, da pista onde bailaremos, do
palco que contemplaremos, do trombone que
nos espera, da cuíca que choramos, sob o
céu, o luar, a luz que bate nos arcos, da gente
de cantos mil que brilha naquele encanto.
Mas haja abstração: o fedor, cedo ou tarde,
corrói os sentidos, o exalar da uréia em algum
momento fala mais alto que nossos sentimen-
tos mais eloqüentes. Se o motivo é cultural,
ignoro. Talvez seja. Somos rurais até a alma,
crescemos com o hábito de ir lá no matinho.
Ou seremos porcos mesmo, bárbaros desde
os inícios, até o fim dos tempos?
Há quem jure que a tragédia provém da re-
les falta de banheiro público. Que falta priva-
da pública (!), lá falta, e no Rio inteiro, e por
uma razão oculta não se dá jeito. Mas... será?
A Lapa tem uma alta concentração de estabe-
lecimentos de toda natureza, munidos de va-
sos. Querendo, a gente chega rapidinho à lou-
ça, tem até da inglesa e da alemã, de época. A
coisa, penso, é visceral. Muito chope nas
idéias, pouca educação, uma preguiça atávi-
ca, um pânico de interromper a marcha da
boemia para ir aporrinhar-se numa célula
cheirando a sopa. Melhor espalhar o fedor
por aí, democratizar os nossos restos, dar de
beber às moscas. Somos todos irmãos, mi-
jões, guerreiros, percevejos, livres de amar-
ras, inimigos de azulejos.
A Lapa não precisa de repressão. Todos se
deslumbram em paz, e tem até um guardinha
de trânsito instalado no meio da rua, como os
antigos, cheio de gestual, atração turística,
fantasma. Tem o bafômetro, o Patâmetro, mas
tudo segue em alfa. Ainda assim, arrisco, será
que uma patrulha de posturas, de passagem,
não faria bem? Pingou, dançou. Qual a pena?
Sei lá. Vai pra casa, Padilha. Arrumam-se umas
vãs e deportam-se os mijões para a Central do
Brasil, e de lá cada qual segue seu destino.
Mesmo que seja de volta à Lapa.
Um desafio para o novo prefeito: melhorar
o cheiro da Lapa. Borrifem-se perfume dos he-
licópteros. Desviem-se os mananciais. Provo-
que-se uma enxurrada. Faça-se chover duran-
te sete anos. Suspenda-se o chope (enquanto
eu estiver de dieta). Instalem-se mijômetros
para medir o grau de incontinência. Pardais
para reprimir os pintos. Ressuscite-se o Sujis-
mundo. Arranquem-se as árvores, os postes,
os carros, as calçadas, os arcos. Tire-se a La-
pa do mapa, esconda--se o mapa da Lapa.
Mas sem a Lapa, quem somos? Não vive-
mos sem ela. Não acordamos, não dormimos,
não amamos, não urinamos. Sem a Lapa, nos-
sos rins vão à ruína, nossa bexiga não se ex-
plica, nosso alívio não se estabelece. A Lapa
volta, todos os dias, a ser a Lapa, limpa ou
imunda, a Lapa que merecemos, de perfume
de quinta, de limão-de-cheiro, de pinga e fu-
maça, de sacolé de cachaçuva, de chuva, de
vulva, de rock, samba e carnaval, até o fim dos
tempos, até que nossas vísceras sequem, que
nosso coração se transforme numa ameixa, e
deixemos escorrer nossa última e redentora
gota. Até que enfim, morremos na Lapa.
29/10/2008
-11:41
Desde quando distribuir renda é sinônimo de socialismo?
Alguém pode me explicar por que Obama é "acusado"por McCain te ter defendido uma melhor distribuição de renda, como se isto correspondesse a uma declaração de princípipios marxista, rumo à Revolução?
E por que isso é considerado, de forma acrítica, como uma acusação, inclusive pelos textos de imprensa? Quiçá pelo próprio Obama, que "reage" à acusação com outras críticas, sem comentá-la?
Em qualquer país desenvolvido do mundo capitalista, hoje, distribuição de renda é um índice importante, os governos tendem, ao menos em tese, a trabalhar para diminuir a concentração de riquezas e a diferença entre maiores e menores salários, além de ser um dado que compõe os índices que ranqueiam as nações, inclusive quando se afere desenvolvimento humano.
Que drama é esse?
A ironia é que neste momento está ocorrendo o contrário: os americanos estão distribuindo sua renda (de seus impostos) aos bancos.
28/10/2008
-19:28
A cabeça de Bin Laden na Casa Branca
Imaginem a cena: sábado, véspera das eleições americanas, George W Bush convoca uma coletiva no jardim da Casa Branca e exibe, numa bandeja, a cabeça de Osama Bin Laden, embalsamada num freezer há seis meses à espera do momento.
Então todos estendem o braço na posição do "Heil", e gritam: "God Save América", e a vitória de Obama vai pro beleléu.
O autor dessa fantasia, um parente meu que aniversaria hoje, não crê na vitória do democrata, por achar que a América está crivada ainda de pensamento retrógrado predominante, e não permitirá, ainda, a vitória de um candidato negro.
Domingo passado este mesmo parente me disse que não havia qualquer possibilidade de Gabeira perder. Espero que ele continue assim afiado em suas previsões e certezas.
Feliz aniversário, com Obama no bolo.
27/10/2008
-16:29
Obama, agora, é o Gabeira no Americanão
Para quem está de luto pela derrota de Gabeira no Cariocão, uma boa cura é voltar os olhos para a reta final do Americanão. Obama acaba de fazer um discurso bonito em Ohio, centrado não apenas nas questões objetivas (todas abordadas), mas em questões maiores, filosóficas, sobre ética, respeito, valorização da educação, superação da desconfiança mútua, aposta e investimento nos bons, e não nos maus instintos. Ao comentar a atual crise, falou, em referência ao espírito que vige nos mercados, de "uma era na qual o que é bom para mim é suficientemente bom". Raciocínio fácil de extrapolar para o espírito que, prioritariamente, rege nossos tempos, e ponto. Em todas as esferas, "o que é bom pra mim tá muito bom, e danem-se os outros" prevalece sobre os esforços hercúleos de, independentemente de ideologia, se buscar o mínimo de noção da existência de uma coletividade que vá além do próprio quintal, ou nem tanto, além do próprio umbigo. Um paradoxo em tempos de globalização.
26/10/2008
-19:45
Os 7 erros de Gabeira (ou Como jogar fora uma eleição ganha)
Claro que o comando da campanha vai dizer que foi culpa do Cabral, que marcou o feriado do funcionalismo para o dia seguinte à eleição, e fechar os olhos para os próprios erros, como é de praxe. Mas, qualquer observador atento ou analista informal (como o presente blogueiro), eleitor de Gabeira ou de Paes, nulo ou ausente, há de perceber que o ponto e meio de diferença que deu a vitória a Paes e que dificultou o que tendia a ser uma disputa mais folgada para o candidato verde (que não dependesse de fatores como o feriado), pode ser atribuído a sete erros que Gabeira e sua assessoria fizeram questão de cometer, apesar de facilmente evitáveis, o que teria sido precioso para enfrentar uma campanha que vinha com o apoio da máquina. A pergunta que fica: Gabeira queria mesmo ganhar?
1. O advento da "visão suburbana" e do "analfabetismo político", ou "O caso Lucinha", quando a Onda Gabeira ainda estava no forno, pronta para crescer. Para além do mérito deste pensamento (jamais esclarecido), foi um dos maiores "moles" de assessoria de campanha na História universal das eleições (permitir que ele tivesse uma conversa daquele teor nas proximidades de equipes de imprensa). Isso sem discutir aqui as razões do teor... será que Gabeira, em vez de malhar a aliada mais forte, não deveria estar justamente capitalizando o apoio?) Munição poderosa para o adversário polarizar a campanha entre "Zona Oeste" e "restante da cidade" e lançar a estigma do "Gabeira preconceituoso".
2. A decisão de não se preparar para os debates (preguiça ou crença?) enquanto o adversário tomou um banho de media training e deu um show de desenvoltura. Gabeira não foi suficientemente inteligente para valorizar e aperfeiçoar sua singularidade humana e política através do discurso, enquanto Paes reforçou o tradicionalismo do seu perfil seu com o bom uso da retórica através do marketing. Ao mesmo tempo, a idéia de que estar premanentemente refletindo, meio blasé, sem externar planos objetivos, teria um charme insuperável e passaria uma "sinceridade" imbatível até o fim da disputa foi uma pérola de prepotência, para não dizer indolência.
3. Jamais criticar diretamente a impopularíssima administração Cesar Maia, que declarou apoio espontâneo à sua campanha. Para muitos eleitores, esse refresco soou como pacto silencioso com o atual prefeito, que podia redundar em futura colaboração. Gabeira tampouco soube ser seletivo em seus ataques. Não queria atacar, mas, quando o fez, escolheu os alvos errados, deixando uma série de pontos fracos do adversário incólumes.
4. Acreditar que a "Onda Gabeira" (que inegavelmente aconteceu no Primeiro Turno e permaneceu viva no inícío do Segundo) era uma realidade vegetativa, que pouco dependia do caminhar da campanha, foi um exemplo consumado de wishfull thinking que contaminou os seus partidários.
5. O advento dos "sambistas de Paes atraídos por a feijoada", na segunda metade da campanha, foi um reforço extraordinário, colossal, à tese da campanha adversária de que Gabeira é preconceituoso. Foi um "Caso Lucinha II - A volta", num momento crucial da disputa.
6. A recusa em apresentar uma plataforma suficientemente diferenciada, afirmativa, em relação à de Eduardo Paes, apesar da óbvia diferença de personalidade e modo de ação, preferindo, muitas vezes, salientar os pontos de convergência, como se estivesse pleiteando uma secretaria. A campanha, ao menos na TV~(pois na Internet soube inovar), não esteve, definitivamente, à altura do produto.
7. Na véspera das eleições, disse que não ia pactuar com o fisiologismo da câmara. Como diz um amigo, "a chibata comeu solta nos currais"... um exemplo final do destempero e falta de senso de oportunidade e timing que não se esperava de um perfil tão sereno e cerebral (é mesmo?) como o de Gabeira
25/10/2008
-16:00
Bola Fora
Quando o amor é chutado para longe do gol
Por Arnaldo Bloch
(Crônica publicada este sábado no Segundo Caderno)

Exatamente um ano atrás (sei disso por-
que foi na semana de aniversário de
minha irmã, que soprou velinhas on-
tem) magoei profundamente, através
de palavras escritas, um grande amigo.
Amigo e também primo. E também tio (nes-
sas famílias gigantes os graus de parentesco
se complexificam exponencialmente).
E também pai. Claro que pai mesmo só se
tem um, e o meu é o maioral. Mas sempre te-
mos um segundo ou terceiro pai, no sentido
da função e da dimensão simbólica.
Ao magoá-lo, creiam, tinha em mente o con-
trário: sentindo-me pleno de amor no cora-
ção, queria homenageá-lo, por linhas tortas,
confessando-me torto eu, torto ele, tortos to-
dos, rumo ao destino comum.
E assim, torto, desastrado que sou, acabei
expressando o afeto pelo avesso, pela tangen-
te — tão atado por subterfúgios, ironias, in-
teligências, que o que era amor soou hostil a
seus olhos (e, agora, que me leio em retros-
pecto, também aos meus).
Ninguém está livre de uma bola fora. Já vi
nego bom de bola bater córner para a lateral.
Ok, não era tão bom de bola assim: era Peri-
valdo. Mas, admita-se: Peri da Pituba tinha lá
suas qualidades também. Como tenho, eu, lá
as minhas.
Mas sou — e isso eu aprendi desde a tenra
infância — pródigo em bolas fora. Muitas de-
las justamente quando tenho o gol aberto
diante de mim (o que, metáforas à parte,
acontece até com profissionais...).
No caso em questão, era um golaço: jamais
sentira tanta ternura, amizade, carinho, pelo
meu amigo. Mas na hora de lançar o amor ao
filó, chutei longe, além das arquibancadas, e a
bola foi parar lá para os cumes de Ururo, Po-
tosí, essas cidades que batem 4 mil metros.
Pois a bola voltou na mesma proporção, ti-
ro frontal, no nariz, e até agora me vejo ma-
reado. Por um lado, é um atordoamento triste
e doloroso. Por outro, uma porrada restaura-
dora: a mágoa do meu amigo foi também pro-
va maior de amor. Desde criança, achava-me
malquisto, menosprezado, por ele.
De repente, sou capaz de afastá-lo por mo-
tivo de gostar. Até que ponto era isso que, in-
cônscio, em cálculo de rebeldia, eu almejava,
é algo que só mais uns 50 anos de análise res-
ponderão, e até lá já me terei unido aos maio-
res perebas da História numa esfera superior,
ou inferior, conforme o que os céus me reser-
varem, se houver ainda lugar de viver.
Paradoxalmente, os efeitos colaterais des-
sa noite de um-ano-após só me trazem boas
coisas agora. Primeiro, imagens de um filme
de casamento, de seis décadas atrás, onde
meu amigo aparece menino e sorri o mesmo
sorriso que vim a conhecer depois, menino
eu, ele primo-tio, sorriso torto, no bom sen-
tido, zombeteiro, jeito de olhar pra criança.
— Vem cá, sacana! — ele dizia, e eu sabia
que era sacana do bem, jeito sacana de dizer
sapeca, de quem sabe que ninguém é todo pu-
reza, mas que, no fundo, tudo é alegria.
Hoje ele diz o mesmo para os netos e, de
alguma maneira, queria ser, por uns minutos,
neto do meu primo-tio-pai para ser chamado
de sacana no bom termo, já que atualmente
estou no grau de mau sacana, ferido que ele
está por minha homenagem sem cuidado, ho-
menagem sem jeito, puro defeito.
Depois de adulto, eu, e um pouco mais adul-
to, ele, estivemos lado a lado em situações di-
versas. Divergimos muito, concordamos pou-
co, mas comemos bem, e rimos, momentos
esses em que as almas se unem e tudo é me-
nor que uma sobremesa, abacaxi banhado em
champã, um colosso. Num país frio recebi sua
visita e, ao me ver com casaco leve, arrastou-
me para comprar um sobretudo que, só de
chegar perto, tudo se convertia em Senegal.
Percorremos estradas vicinais francesas e
cantamos hinos parodísticos para sacanear
uma pequena cidade, Chênehutte, que vive à
sombra de outra pequena cidade, Saumur.
“Allons enfants de Chênnehuuuuuuute/Bat-
tre la dictature de Saumur!” — entoamos, às
gargalhadas, como dois forasteiros.
Meu amigo, que não é muito de dançar, pa-
recia feliz ao som do rádio do meu Volvo, que
tocava uma disco-music manjada, e ele batu-
cava na janela, isso tendo ao fundo uma des-
sas grandes catedrais ao pôr-do-sol.
Na mesma viagem, de volta à capital, assis-
timos a um filmaço, “Stalingrado” (do alemão
Joseph Vilsmaier), reproduzindo a grande ba-
talha com a câmara rodando do ponto de vis-
ta de um batalhão germânico, nos momentos
que antecedem a derrota, e vibramos, quan-
do, entrincheirado, exausto, o grupamento
avista cinco tanques russos serenamente sur-
girem do curvo horizonte da neve.
É com ternura que recordo também um re-
lato sobre sua primeira viagem à Alemanha,
quando meu amigo entrou numa taverna, en-
tornou um litro de chope com salsichão, pa-
gou a conta, foi ao banheiro e urinou o litro
inteiro, propositalmente no chão. Era sua vin-
gança contra toda a infâmia hitlerista e, quem
sabe, contra toda a infâmia do mundo.
Não sei nem espero saber onde vai dar esse
escrito. Ele é um antídoto, não contra a mágoa
alheia, que essa a gente não controla nem tem
o direito de julgar, mas contra a minha mágoa
de mim mesmo. Sei o que sinto, sei o que quis,
sei o que fiz, e já me perdoei.
O perdão do outro não está a nosso alcan-
ce, mas, estabelecida minha sentença diante
do monitor (um tipo de espelho), desligo o
computador e vou dormir, que já é tarde e me
aguarda, com certeza, um sonho bom.
24/10/2008
-17:00
Dieta à base de alpiste
Hoje comecei novo regime com nutricionista e tive uma surpresa: o ser humano, nas palavras da doutora, está consumindo cada vez mais ("graças a Deus", segundo ela) semente de linhaça (leia-se alpiste), o que é ótimo para a saúde em todos os sentidos, um santo remédio natural. Assim será, daquim pra frente, até o fim de meus dias, meu primeiro desjejum: um copo de água gelado e uma colher da farinha moída da semente (eu memso devo moer, pois a farinha industrializada, peneirada, tem menos nutrientes). Lembro-me que quando criança, na serra, eu às vezes roubava alpiste dos passarinhos (e a semente de girassol dos papagaios). Não achava ruim (o passarinho sim, ficava p%$#&uto). Vai ver somos todos passarinhos. A não ser na hora de comer o franguinho grelhado, que ninguém é de ferro. Ou melhor, de pena. Ou de selênio, pois a castanha do pará passa a ser, também, obrigatória.
22/10/2008
-20:33
Olha o Montenegro de novo aí, geeeente!
Lá vem o Montenegro descendo a ladeira. De novo. E com chances de se eleger presidente. Como prelúdio, já sai lavando roupa suja, acusando jogador disso e daquilo, revelando dissenções internas de momento, com o objetivo de queimar tudo, botar fogo, no pior sentido da expressão. Coincidentemente, no mesmo momento em que o time se dá mal na Sul-Americana. Ano passado, por causa desta famigerada e desimportante competição, ele xingou meio time de frouxos enquanto o Botafogo estava fazendo ótima campanha no Brasileiro, mostrou calcinha, e aí foi tudo pro beleléu, como ele gosta. Aguardem muita confusão para daqui até as eleições dele. E, depois de eleitom se eleito for, e quero queimar a língua, o que virá é um tempo de trevas jamais visto. Com Montenegro, não tem estrela, é só escuridão, ainda que se vença. É futebol americano, não é Brasil, não é classe, não é amor, é só paixão destemperada e violência verbal. Não torço para esse Botafogo.
20/10/2008
-14:28
Grandes Crimes
Não estamos apenas numa era de grandes
crises, mas de grandes crimes. O folhetim
do sequestro de SP ainda nem esfriou e já
nos é entregue o corpo de Artur Sendas em
mais uma história de contornos horríveis.
As armas proliferam e a morte impera, vil.
Nessas horas, pelo vulto dos crimes e por
se referirem a famílias de classe média ou
alta, fica a impressão de que o momento é
mais agudo, como se outras mortes trágicas, passionais ou torpes, não ocorressem todos
os dias sem que nada além de um registro,
quando muito, nos chegue, mas que compõem
continuamente um grande cordel dramático
que facilmente ocuparia todas as horas de
todos os canais e todas as páginas de todos
os jornais, um novelão, funério sem fim.
Histórico do Blog
2008:
Jan | Fev | Mar | Abr | Mai | Jun | Jul | Ago | Set | Out | Nov | Dez
2007:
Jan | Fev | Mar | Abr | Mai | Jun | Jul | Ago | Set | Out | Nov | Dez
2006:
Jan | Fev | Mar | Abr | Mai | Jun | Jul | Ago | Set | Out | Nov | Dez
2005:
Jan | Fev | Mar | Abr | Mai | Jun | Jul | Ago | Set | Out | Nov | Dez
2004:
Jan | Fev | Mar | Abr | Mai | Jun | Jul | Ago | Set | Out | Nov | Dez
2003:
Jan | Fev | Mar | Abr | Mai | Jun | Jul | Ago | Set | Out | Nov | Dez
Perfil do Bloch
- Carioca de 1965. Jornalista e escritor.
Time: Botafogo, claro. Signo: informação irrelevante. Horas vagas: sexo, música (ouvir e fazer), xadrez online, gastronomia, bicicleta e só, chega.
Livros do Bloch
- Amanhã a Loucura (Romance)
Nova Fronteira, 1998 - Talk-Show (Romance)
Companhia das Letras, 2000 - Fernando Sabino/Perfil
Relume Dumará, 2000 - Geração 90/Os transgressores
Boitempo, 2003 (Org. Nelson de Oliveira)
Off-Blochway
- 'A Vida do Meu Filho', por Luiz Fernando Vianna
- Blog da Logo, a Página Móvel
- 'Urublog, o ninho da Ave', por Urubu
- 'Cronopios', Literatura e Arte no Plural
- 'Poemetes & Textos sobre Fotos', por Frederico Mendes
- 'Qualquer Nota' (Poesias) , por Patrícia Evans
- 'Comentários e Versos do Cadafalso', por André Machado
- 'Quieta em meu Canto', por Denise S.
- 'Telescópio - Um olho buscando a poesia', por Nel Meirelles
- 'No mínimo', com grande elenco
- 'Pentimento', por Marcelo Moutinho
- 'Todoprosa', por Sérgio Rodrigues
- 'Zé Pereira', o blog da revista

Edição digital
No celular
No e-mail





