As aventuras de um torcedor brasileiro nos Jogos Olímpicos
18/11/2008
-18:03
Um Mito Feminino Necessário e Moderno

Está nas bancas o segundo volume da coleção Tesouros da Ópera, trazendo, desta uma das minhas prediletas: Carmen, de Georges Bizet.
Na biblioteca escura e empoeirada um homem se debruça sobre velhos mapas, pergaminhos e livros quase secretos. Ele precisa compreender percursos e o duque de Osuna lhe franqueia suas estantes e os dominicanos de Córdoba lhe abrem seus incunábulos. Um homem encanecido à luz de velas e poeiras e terríveis e microscópicas feras, curtido ao sol de brejos e desertos, surrado de ventos doídos de secura como de umidade - Merimée o erudito, o cientista, o arqueólogo, o geógrafo, busca a fala, a narrativa cantada que costura sua novela entre pedras e entre bichos: do rio, das águas como Afrodite, surge molhada, bruxa, longas e rodadas saias negras e vermelhas, quimera, curinga de tantas e simultâneas vozes, sua obra prima – Carmen está nascendo.
Ela nasce dessa origem rara e privilegiada: de pesquisa, de ciência, de livros escritos sobre livros, conquista a lenda, a narrativa viva e a música. Carmen ganha seus contornos nesse percurso da escura biblioteca para a luminosa fonte, para a água clara e corrente, mas pelas mãos de um homem que, no seu medo dela, não adivinha sua possibilidade mítica, sua força de heroína da transgressão.
Carmen foi escrita como uma pequena novela por esse estável administrador de monumentos de 42 anos, autor de várias personagens femininas que contam o percurso emocional de seu criador: de homem que tem pena das mulheres, Merimée torna-se um misógino que, textualmente, não mascara mais o portador de uma ginofobia – um medo mórbido dessas mulheres que propiciam “dois bons momentos – no seu leito e na sua morte”. Mas essa afinidade essencial entre o amor e a morte não é, evidentemente, menor, e coloca Carmen nesta linha excepcional que atravessa tanto tempo, indo de Manon a Lolita. Talvez nem ele mesmo tenha compreendido os diversos paradoxos, a polifonia de vozes, as magníficas contradições que ele, reconheça-se, plantou nessa sua magnífica menina cigana, moura, judia, mas heroicamente trágica pelo mesmo viés que liga essa mulher livre a todas as grandes tragédias que são, afinal, tragédias da liberdade.
Mas não é aquela a Carmen do mundo. Essa começará a surgir trinta anos depois pelas mãos de Georges Bizet e dos seus parceiros, Henri Meilhac e Ludovic Halévy. A orquestração de mil e duzentas páginas está pronta em dois meses, estréia a 3 de março de 1875 e, trinta e três récitas depois, Bizet morre repentinamente, aos 37 anos, sob suspeita de um suicídio motivado pela paixão desesperada por sua solista principal. O público se surpreende com Carmen, reprova sua licenciosidade, fala-se em “falta de vergonha espanhola”, mas Nietzsche já a adivinha e compreende - “o amor cínico, inocente, cruel...” - ao longo dessas mais de 20 récitas seguidas a que assiste.
Maria Callas - Hamburgo, 1962
As modificações foram muitas, fundamentais, estruturais e, sem elas, esta nova Carmen não teria um destino muito maior do que aquele da original. Elas foram muitas mas, aqui, vamos nos deter apenas em algumas poucas e essenciais para a construção dessa que é, então, para além da trágica heroína romântica, um mito feminino moderno.
A primeira me parece ser a inclusão de personagens novas e centrais. A começar por Escamillo, o belo, poderoso, bravo toureiro, que oferecerá a Carmen não apenas mais um, mas o amor luminoso, o amor do toureiro a esta mulher em meio à fuga, a clandestinidade, a miséria dos esconderijos, a perda da beleza e do poder de sedução. Ele tem a oferecer a ela um amor vital, não um amor “salvador” – este homem não faz nenhuma consideração moral sobre a mulher que ama e que conheceu naquela taberna de periferia. Escamillo e seu luminoso tema de toureiro está lá na abertura musical, como também estão o tema da corrida e o do destino de Carmen – mas não o de José. É assim que os autores anunciam que, nesta nova obra, os personagens mais importantes são Carmen e Escamillo. Don José é a tragédia que interrompe essa história que poderia ser a do amor como alegria e prazer.
Ruggero Raimondi como Escamillo
Micaëla foi genialmente inventada pelos libretistas para formar o quarteto dramático ideal. O arcanjo Miguel – Micaëla é o seu feminino – é o adversário do diabo e o protetor do pecador. O dueto de Micaëla e Don José é um dos mais belos momentos dessa obra prima. A moça é portadora de uma carta onde a mãe de Don José comunica a seu filho que aquela é a moça virtuosa escolhida para ser a sua esposa, do seu “menino” - é assim que ela se refere ao oficial; ela também traz algum dinheiro e, como lhe foi pedido na saída da capela, um beijo, que Micaëla quer entregar como um carinho, mas que José prefere como um recado.
Tudo isso está lá para nos falar do que não se quer ver. É Carmen a heroína ativa, corajosa de realizar sua aventura na busca obstinada de ser feliz, como no enfrentamento até mesmo da morte na defesa de sua lei intocável – ser livre. Mas há algo inaceitável em Carmen: é ela a sedutora. Ela expõe com toda a clareza o fundamento de seu desejo, de sua paixão, de seu amor: ele é um pássaro rebelde que não se pode aprisionar, um menino cigano que não conhece qualquer lei; se você não me ama, eu te amo mas, se você me ama... cuidado! Esta é sua lei – anunciada diante de todos, inclusive de José, no Ato V do Primeiro Ato e, portanto, ninguém pode reclamar desconhecê-la. Ela é reconhecida e espontaneamente volúvel, brincando com todos os homens sobre a possibilidade de que amanhã, ou um outro dia qualquer – mas não hoje! – um deles poderá ser o próximo escolhido...
Maria Ewing
Não são jogos de capricho manipulador as palavras, os sorrisos, os gestos de Carmen, mas o poderoso exercício soberano de sua sedução. Há muito se propõem comparações entre Carmen e Don Juan. Mas a Carmencita flutua, muito leve e rápida, entre seus escolhidos, desejando sempre mais uma fantasia, nunca um marido. Qual a graça de reter o passageiro, de fazer memória, de fixar a vivacidade de suas aventuras improvisadas? O catálogo de Don Juan não é mais que a negação do espontâneo, mais que o obituário dos amores. Ela não se desperdiça em fazer uma coleção: a mania sintomática de reter – mesmo em uma aparente incontinência – o tempo e o desejo. Carmen inverte os papéis e, no mesmo gesto, retorna ao mito de Don Juan. O final de Carmen é o mesmo final de Don Giovanni: Arrependa-se, exige a estátua do Comendador – Não, responde Don Giovanni; Fica comigo, implora Don José – e Carmen lhe responde – Não, não! Magnificamente solitários, eles são os orgulhosos do orgulho de ser.
É Don José o fraco, o inquieto diante da sedutora, diante da virgindade da noiva enviada pela mãe que ainda o domina com bilhetes e mesadas enviadas de Navarra. Ele é corrupto, covarde e desertor diante da farda, fraco junto aos camaradas de crime. Don José consegue ser o traidor de todos eles e de todas elas ao mesmo tempo em que pretende obstinadamente ser o corno, o traído, o bom menino caído em desgraça, o mocinho virtuoso desvirtuado. Mas o seu pior ainda está por vir.
A segunda grande mudança estrutural da obra, diz respeito aos espaços da trama, aos seus cenários: a praça de Sevilha e a praça das corridas. Na primeira está a vida: de um lado a fábrica de cigarros cheia de suas mais de 3.000 operárias, do outro lado a casa da guarda, ao fundo uma ponte. As pessoas passam, olham, se conhecem, se reconhecem, crianças cantam, marcham imitando os soldados, operárias gritam agudas as suas brigas. A praça, espaço aberto, voltado a todas as direções, espaço sensível, espaço de convívio – espaço de tempo. Espaço que dispensa as marcações de domínio, as fronteiras de propriedades, a demarcação fálica de desesperadas frustrações: arranha-céus, obeliscos, colunatas. Ela é o espaço feminino. Espaço do tempo mítico de Carmen. A natureza de Carmen é a do divertimento: ela se diverte como respira. Em uma praça: espaço feminino do tempo.
Na segunda está o sexo: o cercado de madeira, a multidão em torno, a areia, as calças justas e os coletes bordados de miçangas, vidrilhos, madrepérolas; a fanfarra, as banderillas, o picador, os cavalos vendados. Os gestos medidos, as capas, a excitação, a gritaria – o touro e o toureiro, a corrida, a espada, a medição, a submissão, o embate, a surpresa, a invenção, o ritmo, a celebração, a exaustão, a penetração, o sangue e a morte. Viver perigosamente, expor-se ao chifre furioso do miúra, ir um pouco mais, lá, onde a morte dança. Encenar os passes da capa para circunscrever os limites da determinação do animal, encontrar as formas e as arquiteturas de sua bravura, dança ritual do homem e do animal, de uma inteligência e de uma energia.
Proximidade íntima de fôlegos e movimentos, medidos, dançados. A ponta precisa percorre a pele, a carne, o osso, para tocar o coração. O sangue surpreende a platéia no jorro da boca do touro surpreso com o gosto do aço, com as pernas formidáveis que lhe faltam. A multidão explode, o toureiro se vira, arrebitado, a capa arrastada longamente sobre a arena, as flores que voam são o que por último vê o olho revirado e perdido do touro que morre.
Lá fora Carmen encontra José. Ela é clara: não o ama, ama Escamillo, livre ela nasceu, livre ela morrerá. Ele implora, ele jura, ele usa seu vocabulário religioso e supersticioso para chamá-la uma vez mais de demônio. Rejeitado, o macho está castrado, seu falo não há, a faca é a substituta óbvia e ridícula do que deveria ser sua potência mas que é apenas essa honra flácida, essa bravata insuportável a que ela, uma vez mais, assiste. Ele afunda a lâmina na carne macia de Carmen.
Julia Migenes como Carmen, Placido Domingo como Don José
A consagração universal da Carmen veio do público, principalmente ao longo das últimas décadas, quando ela tornou-se a ópera mais assistida no mundo. Das muitas lições que ela continua a ensinar, duas me parecem mais atuais do que nunca.
Primeiro a lição da sua genealogia. O exemplo de que o popular – como a seguidilla e a habanera, como tantas formas de cantar e de dançar, se universalizaram e permaneceram pela exposição, pela troca e convivência com criadores e métodos alheios aos seus meios originais. Não conheço nenhum grande autor da tradição musical ocidental que não tenha saído da catedral ou da biblioteca para se nutrir das fontes das praças e das salas de dança. Ninguém saberia o que era um minueto ou suítes de danças sem Bach, nem o que foram divertimentos sem Mozart.
Depois a lição da altiva liberdade sexual e amorosa de Carmen, do seu corajoso enfrentamento da covardia assassina do macho. Vale lembrar que Carmen morreu, mas Don José continuou vivo. Sua presença ronda cada esquina, sua faca ainda se esconde debaixo do capote sujo – basta ligar a tv ou ler os jornais.
A modernidade do mito feminino de Carmen é seu paradoxo, o vivo paradoxo da natureza habitual de jamais se habituar, precisamente o paradoxo de uma permanência em movimento, um hábito de mudança. Ela foi seu movimento. Ela não admite ceder ao outro a verdade do seu desejo, ela não permite nem a manipulação romântica, nem a violência da ameaça, muito menos a ofensa do desvairado impotente. O paradoxo do mito moderno da Carmen é o de ser um mito profano e realista. Carmen não é nem o bem nem o mal: ela é uma mulher. Atravessando a distinção do proibido e da transgressão.
Carmen não é apenas uma reivindicação geral de liberdade mas precisamente a liberdade de desejar. E o que pode ser mais sagrado do que a liberdade?
15/11/2008
-12:06
A Estrada

Ela diz que não sabe dizer certas coisas. Não é verdade. Ela sabe dizer tudo. Qualquer coisa. E de maneira tão simples, divertida, poética. Acho que é porque ela compreende tudo. Qualquer coisa. E de maneira tão profunda, humana e verdadeira. Acho que é porque ela presta tanta atenção, faz tanto silêncio, ouve todas as coisas. De maneira tão intensa, delicada e sincera. Acho que é porque ela é tão integralmente ela.
Nosso primeiro encontro foi marcado para uma esquina no Leblon, em frente à Livraria Argumento. Parecia uma miragem mas eu me calei, disfarcei, fui apenas o maestro simpático e discreto, e ganhei dela um disco com algumas de suas composições. Que adorei. Dentre elas A Estrada, que eu ficava ouvindo e ouvindo. Achei que nunca voltaria a vê-la, porque não me via ao lado de uma mulher mais jovem. Fugi. E voltei. Uma das poucas coisas certas que fiz na vida.

Pegamos a estrada, mundo afora, trabalho e passeio, uma lua de mel que os anos só intensificam. Agora, a Lara vai junto. Mundo afora. E a Bíbi ensinando a mim e à nossa filha que "a estrada é a recompensa". Ouça aqui A ESTRADA.

Na esquina do Leblon eu dobrei a minha vida, segui para o outro lado, aquele em que se é feliz.

15/11/2008
-11:14
Só porque é bonito

Um grande barco, velas enfunadas, mar bravio e profundo, a vertigem das ondas, o céu pesado, o vento forte, a delícia de sentir-se pequeno e pertencente. Música é assim. E muito mais.
Pensei em ouvirmos alguma coisa sobre o mar, sobre barcos, mas não queria nem bossa nova, nem Wagner. Coisas singelas, manhãs de sábado. Lembrei-me dessa canção que amo, de Kurt Weill, e encontrei essa linda interpretação de Julie Andrews: My Ship, do musical Lady in the Dark, escrito com Ira Gershwin em 1940.
Mas também queria alguma coisa instrumental, não descritivo, somente a sensação gorda e boa de flutuação preguiçosa, de vento e espuma. Encontrei duas coisas despretensiosas como queria, ambas para trombones baixo. A primeira, com Stephen Schulz, da Filarmônica de Berlin, interpretando Canção para Lotta, de Jan Sandström.
A outra é a interpretação de Ben van Dijk, trombonista da Filarmônica de Roterdã, que se apresenta com um grupo de amigos interpretando um trecho de Bastasia, de Steven Verhelst, que também faz parte do grupo. Bom fim de semana!
12/11/2008
-18:12
Grandes Oportunidades: o Trio Agosto
O Trio Agosto - formado pela clarinetista Lucia Morelembaum, a pianista Josiane Kevorkian e o violinista e violista Nayran Pessanha - nos oferecem duas oportunidades de ouvir esta formação tão rara quanto bela. A primeira amanhã às 20:30hs, na Fundação Eva Klabin (Av. Epitácio Pessoa 2480 - Lagoa - Tel: 202.8550/8554). A outra será no próximo dia 18, às 18:30hs, no Espaço Cultural FINEP (Praia do Flamengo, 200, Pilotis - 2555-0717 / 2555-0615).
O óbvio algumas vezes é necessário. Pois aqui vou cometer mais um: sonoridades são música. A formação de um trio de clarineta, viola e piano é um achado, uma pequena e ilimitada maravilha que não pode ser descrita - precisa ser ouvida, presenciada. Especialmente quando reúne três músicos de carreiras consistentes, amadurecidas em diversos repertórios, capazes dos gestos musicais mais amplos e serenos.
O repertório é a outra oportunidade. Eles apresentarão o Trio, de Nino Rota, além de obras dedicadas a eles: o Trio de João Guilherme Ripper; a Fantasia, de Sérgio Di Sabbato e, em estréia mundial, Modus, do compositor italiano Domenico Giannetta.
Enquanto eles não chegam, vamos ouvir um trecho do Trio de Max Bruch, com Jonathan Sacdalan na Clarineta, Bryan Gonzalez, Viola e Jason Stoll, Piano.
11/11/2008
-20:17
O Segredo de Satyagraha

Aqui, é caso de polícia. No Metropolitan Opera de Nova Iorque, é ópera. Aqui foi anunciado como um grande espetáculo para, depois, mostrar-se uma trapalhada. Lá, começou a fracassar e foi transformada em um grande sucesso.
Satyagraha foi escrita por Philip Glass em 1980, por encomenda da cidade de Rotterdam. O libreto, escrito pelo compositor com a escritora e artista Constance de Jong, foi baseado no Bhagavadgita e no período de Mahatma Ghandi na África do Sul, quando ele formula os princípios de sua ação pela resistência pacífica e pela desobediência civil.

Há um entendimento geral de que a música contemporânea, especialmente a de Philip Glass, é um gosto adquirido. Eu discordo. Acho que todo gosto - musical ou não - é adquirido. Desde o leite materno até o caviar, desde a ópera até o choro, do rock aos quartetos de cordas. Certamente a música contemporânea precisa de proximidade e convício, compreensão, contexto, para ser melhor apreciada. Como o canto gregoriano, a ópera barroca, a sinfonia romântica.
Satyagraha é toda cantada em sânscrito e, no início da sua temporada, em abril deste ano, foi apresentada sem os letreiros com a tradução para o inglês. Logo começaram a perceber uma tendência de queda nas vendas dos ingressos. Um grupo de trabalho especializado em marketing foi reunido. Liderados por um membro do Conselho e com pouquíssimos recursos, organizaram dezenas de ações para atrair novas platéias - grupos de yoga, organizações anti-apartheid, organizações sul-africanas. Logo os ingressos estavam esgotados e a ópera foi programada também para a próxima temporada.
Em algum lugar do mundo Satyagraha funciona - com seriedade e bons profissionais.
Escolhi dois trechos de Satyagraha, na montagem do Met, para começarmos a nos aproximar do que está mais próximo de nós: o nosso tempo.
6/11/2008
-8:00
Kodo - O nome do espetáculo

O Rio tem a oportunidade de rever, no próximo domingo, 9 de novembro,às 19hs, no Teatro João Caetano, o grupo japonês Kodo, num dos maiores espetáculos de percussão do mundo. E que nome tem o que eles fazem? É um concerto? É um show? É dança? É música?
Toda atividade humana é rítmica. Pensar, sonhar, imaginar, andar, dormir, lembrar, chorar, amar, não podemos fazer nada sem ritmo. Somos nossos ritmos. Somos a maneira como percebemos que somos nossos ritmos. Por isso é que espetáculos que coloquem em destaque o ritmo sejam experiências tão intensas. Baterias de escola de samba, A Sagração da Primavera, um solo de Gene Krupa, um improviso de Naná Vasconcelos, ou de Neil Pert. Samba, jazz, as músicas brasileiras, rock ou Igor Stravinsky, são exemplos de que espetáculos o ritmo é capaz de produzir.
Mas o Kodo provoca essa dúvida. Seu trabalho envolve estes vários, belos, pequenos e imensos tambores, mas também há canto, dança, flautas e, não fosse eles japoneses, uma extensa filosofia de vida. E tudo isso eles transformam num espetáculo lindo, vertiginoso, apaixonante como não estamos acostumados a pensar que japoneses podem ser.
E então, o que é? Acho que a escolha é simples. Música é uma experiência racional, emocional e física. Há quem acrescente outras qualidades a esta lista, mas entendo que ela é a mínima consensual. E a ordem não é hierárquica, pode ser qualquer uma. Kodo é tudo isso. Portanto, é música. E o concerto que eles farão no domingo é imperdível.
6/11/2008
-0:33
Brown
Vi numa reportagem na tv que Barak Obama escreveu que não é preto, mas marrom. Gostei disso e, obviamente, pensei em jazz. Uma música marrom, feita de negros e brancos, ricos e pobres, uma música de diálogo e estilo, de encontro e de afirmação pessoal.
A ocasião merece uma bela canção cantada por uma das melhores intérpretes do jazz, que foi Sarah Vaughn. A canção - Somewhere Over the Rainbow - é tema de O Mágico de Oz, um belo filme sobre uma menina que, sonhando ir além do arco-íris, é arrancada de sua casa por um tornado. A partir daí, sua saga é realizar este desejo tão moderno, tão dos tempos acelerados, desta permanente mudança em que vivemos - voltar para casa.
Ele venceu e uma onda de esperança espalhou-se pelo mundo. Desejo boa sorte a ele - e a todos nós. Desejo ao povo americano que ele reencontre o seu caminho de volta para casa.
3/11/2008
-8:45
E viva Rubinstein!
Rubinstein sempre faz o maior sucesso. A Anita enviou este achado maravilhoso com a gravação do Impromptu N.4, em Lá Bemol Maior, Op. 90, de Franz Schubert. Obrigado, Anita!
3/11/2008
-8:36
Declaração de Voto
As eleições americanas são amanhã. Eu não voto lá, mas estamos tão cercados por todos os lados pelas notícias sobre as campanhas eleitorais, a crise financeira, que não pude deixar de examinar bem os candidatos, pesar um e outro, e me decidir sobre qual deles acho o melhor. Feito isso, anuncio publicamente a minha importantíssima decisão:

Em breve começarei uma série de posts sobre ele. Aguardem!
2/11/2008
-13:10
Só porque é bonito
O senhor Y. Z. é muito ocupado. O senhor Y. Z. é muito importante. Ele passa uma grande parte do seu escasso tempo a refletir sobre este dilema: ele é ocupado porque é importante ou é importante porque é ocupado? Preocupa-se o senhor Y. Z., ademais, com o dia em que encontrar a resposta: se concluir que é importante se desocupará? E, se compreender que é apenas ocupado, deixará de... Ele interrompe suas indagações olhando o relógio e sai, correndo como todos os que são ocupados ou importantes. E contempla-se no espelho do elevador, e não sabe como arquear suas sobrancelhas: se para o alto, como os importantes-ocupados, ou para baixo, como os ocupados-sofredores. Enquanto isso, descobre que pode arquear uma para cima, outra para baixo. E sai feliz, correndo, ocupado-sofredor-importante.
Pois nos encontramos na fila do restaurante. Com suas sobrancelhas arqueadas, o senhor Y. Z. ainda moveu para o alto o canto esquerdo da boca ao me ver. Não sei se comemorava ou lastimava o nosso encontro. Educado, perguntou por mim. Distraido, disse-lhe que ando trabalhando demais, na maior correria, muito ocupado. Como todos os meus amigos, todos correndo, mal nos esbarramos aqui e ali, nos escrevemos mensagens curtas, morremos de saudades. Ele encolhe, esbarra as sobrancelhas uma na outra, enquanto derrama a boca para baixo, dilata as narinas. Quero consolá-lo, e logo lhe dou explicações detalhadas de como nós, os ocupados, não somos, definitivamente, importantes. Por isso corremos, trabalhamos tanto, atrás de dinheiro, atrás das contas, estes dois sim, sempre atrasados.
De repente ele se ilumina e, lentamente, todo o seu rosto se abre. Eu deixo feliz o senhor Y. Z. quando anuncio que não posso mais esperar na fila do restaurante e vou embora; comerei um sanduíche, que é mais rápido e barato. Mas o senhor Y. Z. gosta de música, freqüenta o blog e me pergunta por esta seção que não compreendeu: só porque é bonito? Eu explico a ele que sim, é isso mesmo, só porque é bonito, porque não é útil nem nada além de bonito. Seu rosto opera um último milagre e nem se contrai nem se descontrai; apenas está lá, olhando na minha direção sem me ver. Nem se dá conta que me despeço e vou caçar meu sanduíche, me perguntando se não haverá por ali um delivery de espelho para socorrer o senhor Y. Z.
Então, só porque é bonito:

Dominik Axtmann (Orgão) e Franz Tröster (Trompete) interpretam ao vivo o Concerto San Marco de Tomaso Albinoni (1671-1750). Igreja St. Bonifatius em Karlsruhe, Alemanha.
2/11/2008
-11:20
Festival Internacional e Permanente de Música de Humor
Nosso amigo PIANO freqüentou muito a comédia. Um clássico é Chico, um dos irmãos Marx, pianista de estilo muito... próprio. Este é um pequeno trecho do filme Go West em que ele toca para seu irmão Harpo que, qualquer dia destes, apresentarei aqui tocando sua harpa.
31/10/2008
-13:20
Arthur Rubinstein
Ontem ele foi a estrela do encontro do Clube do Maestro e fez tanto sucesso que continuará a brilhar na semana que vem.
Arthur Rubinstein foi um dos maiores pianistas da história da música gravada mas, mais do que isso, foi um ser humano exemplar. Menino prodígio, distante da sua família desde os 10 anos para estudar em Berlim, conquistou e perdeu o sucesso diversas vezes, a ponto de tentar o suicídio aos 20 anos. Felizmente, a corda com que tentou enforcar-se partiu, ele caiu no chão, tocou mais um pouco de piano, saiu sozinho e triste pelas ruas de Berlin achando que era um fracassado até para se matar. De repente percebeu que estava faminto e sem um tostão para comer. Mas a fome lhe dava um outro sinal: ela era a vida chamando para continuar, lutar, teimar. Essa experiência despertou Rubinstein para uma vida cheia de amores, aventuras, filhos, viagens, e muita música.
Seu compositor predileto era Brahms. Escolhi para vocês o Intermezzo Op.117, No. 2, em Si menor, o meu predileto.
Acho que é pouco. Então, aí vai o Capriccio No. 2. Vale lembrar que ele tinha, em ambas as gravações, 86 anos. A jornada terminou aos 95 anos. De vida. De muita vida.
30/10/2008
-15:30
As salas em forma de vinhedos
No post que publiquei sobre a Cidade da Música, critiquei o formato escolhido para a sala - o que os arquitetos chamam de "caixa de sapato", bem retangular -, e o que eles chamam de "vinhedos", uma alusão às plantações das parreiras em vários níveis. O exemplo que dei deste formato foi a sala da Filarmônica de Berlin. Observe como todos têm uma boa proximidade, e, portanto, visibilidade, da orquestra.
Se você preferir, entre AQUI e observe a sala a partir do podium do maestro, ou do lugar que você preferir.
Um outro exemplo, mais recente, é o Walt Disney Concert Hall, sede da Filarmônica de Los Angeles, projeto do arquiteto Frank Gehry.

A sala que será construída em Abu Dhabi, que citei no post anterior, terá também o padrão de vinhedo.

30/10/2008
-13:21
Wagner canta no deserto
No último sábado, a Orquestra do Festival de Bayreuth se apresentou fora da Europa depois de 20 anos. O programa dirigido pelo maestro Christian Thielemann inaugurou a série "Abu Dhabi Classics".

Você já deve ter recebido um daqueles e-mails apresentando as incríveis construções de hotéis extravagantes, ilhas artificiais, arquitetura que parece ficção científica. Pois agora eles estão dando o próximo passo: turismo urbano não dá certo sem programação cultural, de preferência musical que, se houver chance, incluirá estrelas internacionais. Nesta primeira temporada 2008/2009, a série apresentará ainda Zubin Mehta, Cecilia Bartolli, Lang Lang, Bobby McFerrin, Pavel Gililov, Lorin Maazel, as orquestras Philharmonia de Londres, as Filarmônicas de Viena e Nova Iorque, a do Teatro La Fenice, de Veneza, entre tantas outras atrações. As temporadas estão programadas até 2012 e fazem parte de um amplo programa educacional.
A responsável pela mudança na rota da orquestra é Katharina Wagner, bisneta de Richard Wagner recentemente nomeada co-diretora do Festival de Bayreuth. Ela tem planos felizmente ambiciosos, que incluem retomar a tradição de levar a orquestra a outros continentes, inclusive com montagens integrais do Anel dos Nibelungos.
A sala da apresentação repleta de ornamentação dourada estava, segundo a agência alemã Deustche Weller, "mais para As Mil e Uma Noites do que para O Anel dos Nibelungos".

A sala, que faz parte do sete estrelas Emirate Palace Hotel, estava lotada por uma platéia vinda do mundo inteiro, e que tinha ao seu lado 100 estudantes dos Emirados. Mas a partir de 2018 a programação contará com uma grande sala com 6500 lugares projetada pela arquiteta iraniana Zaha Hadid.


E vamos ouvir um pouquinho de Wagner. A orquestra da Royal Opera House, de Londres, encerrando a temporada dos PROMS de 2005, sob a direção do maestro Antonio Pappano, apresenta o final do Ato III de As Valquírias. Bryn Terfel no papel de Wotan.
22/10/2008
-22:26
Tempo Rubato: Pianolatria

Escrever sobre Liszt faz pensar sobre o piano. Não dá para separar um do outro. E quando eu arrematava os últimos filminhos ela chegou marota, preguiçosa, e me perguntou se eu não estava morrendo de vontade para dar uma volta no bairro, tomar um café. Eu não queria nem o bairro nem o café, mas adoro o nosso diálogo silencioso, um observando o trabalho do outro, espreitando uma vírgula por onde roubar um tempo para o bem viver. O Aterro do Flamengo com aquela luz mais que perfeita de 6 da tarde em horário de verão carioca. Temperatura para ser feliz. Brisa leve. Tempo Rubato.
Meu amigo JL era baiano, do interior, cidade pequena. Contava que, na década de 50, atravessava a cidade inteira, de uma ponta a outra, ouvindo os pianos. A mãe de LM nasceu no Espírito Santo, e a minha amiga se lembra “das escalas infinitas” ao longo da rua principal. Eu me lembro da mesma cena ainda nos anos 60, no Rio. Já rapazola, ouvia uma menina no prédio da frente estudando “Pour Elise”, de Beethoven, errando sempre na mesma nota, logo no segundo compasso. Eu tinha vontade de atravessar a rua e concluir o compasso para ela.
Conheço histórias assim acontecidas entre Porto Alegre e Manaus, de Cuiabá a Natal. Você também, provavelmente. Pianos são velhos amigos, móveis e utensílios, e mesmo das casas de onde desapareceram deixaram saudades e hábitos musicais. Na casa da minha avó havia um com candelabros presos no tampo frontal, acima do teclado. Minha mãe estudou ali, acompanhava minha tia cantora. Tinha um teclado meio cariado, cordas soltas, roncos, estridências, gemidos, mas meu avô ainda sentou-se ali perto para me ouvir tocar para ele em algum fim de tarde, os janelões abertos, as cigarras lá de fora me enlouquecendo. E o melhor dessa cena é que ela era comum. No Rio de Janeiro. Início da década de 1970.
No Brasil isso vem de longe, do século XIX - a obra de Machado de Assis está repleta de pianos e pianistas. Até que houve um momento em que ele se sistematizou e engendrou um “pianismo” brasileiro, obra de talento, trabalho e dinheiro, não de um destino que nos foi dado por longitudes e latitudes. Quando o café inundava São Paulo de dinheiro, os fazendeiros contrataram o professor Luigi Chiafarelli; para Arthur Rubinstein, um dos melhores da Europa, “comparável a Isidor Phillipp ou a Busoni”. Queriam que suas filhas tivessem boa educação musical, mas financiaram o estudo de meninas talentosas, independente de seus recursos financeiros. Foram suas alunas Antonieta Rudge, Maria Edul Tapajós, Menininha Lobo e Guiomar Novaes, para citar apenas algumas estrelas, além das que não subiram aos palcos mas multiplicaram boa formação. O pianismo brasileiro, como tudo que vale a pena, nasceu de investimento em educação.

Ao lado dessa intimidade floresceu uma paixão por ele que eu chamo de “pianolatria”. Eu adoro a palavra. Como também os compositores que se dedicaram a ele por mais de dois séculos, os repertórios que criaram, desde as pequenas peças aos mais fantásticos concertos. E a legião de intérpretes que habitam um Olimpo especial de deuses, semideuses e mitos, com legiões de fãs para discutirem e disputarem para sempre que pianista pertence a qual categoria.
Adoro as histórias de sagas para que pianos fossem levados aos lugares mais remotos – o de Nelson Freire para o interior de Minas, o de Dang Thai Sun para as montanhas do Vietnã. E o personagem do livro O Piano, de Jane Campion e Kate Pullinger, que virou filme e ganhou Oscar, e que dá voz à Ada, a mulher que emudeceu aos 6 anos, sem que ninguém soubesse o porquê. “O estranho, no entanto, é que eu não me sinto muda, por causa do meu piano”. Ele lhe dá uma voz e, se você chegar mais perto, verá que o piano faz o mesmo com a maior parte dos grandes pianistas.
Quando minha mãe contou ao meu pai que estava grávida pela primeira vez, ele deu de presente a ela um piano. Foi assim que eu cheguei por aqui, e com direito a uma canção de ninar feita para mim. Meu pai até tentou, mas não dava para ser economista como ele.
O piano sustentava porta-retratos, vasos de flores, correspondências não lidas, e, por algum tempo, um telefone. Hoje, na minha casa, ainda estão lá os porta-retratos, um potinho com as chaves da casa, e, de vez em quando, a Lara brincando de tocar com a mamãe e o papai.
Nesta próxima quinta-feira, eu começo aqui no Rio uma série de palestras sobre pianistas. Informações pelos telefones 2273-0953 ou 7825-6477.
Este pequeno documentário nos mostra como um piano de concerto é fabricado desde a preparação da madeira. O instrumento é um Mason e Hamlin, uma tradicional fábrica americana, de Boston, criada em 1854.
22/10/2008
-17:01
Aniversariante do Dia: Franz Liszt

Franz Liszt nasceu em num dia 22 de outubro, como hoje, na cidade húngara de Raiding, em 1811. Seu pai era alemão, e era administrador e contador do príncipe Esterhazy, para cuja família Haydn trabalhou por três gerações. A mãe era austríaca e desde cedo Liszt viveu cercado de Haydn, Mozart e Beethoven. Quando tinha 10 anos a família foi morar em Viena, onde ele estudou piano com Czerny. Começou se apresentar como pianista logo depois e, aos 15 anos já era famoso.
Em 9 de março de 1831, Liszt assistir a um concerto de Paganini, o grande violinista, e ficou completamente fascinado, como já acontecera a Schumann e a Chopin. Mas a experiência operou uma transformação em Liszt e, a partir dele, na história do piano e da música. Ele se dedicou a explorar os limites do instrumento, transformando toda a técnica do dedilhado, e libertando os cotovelos, ombros e o tronco, até então obrigados a uma inútil e limitadora paralisia. Essa libertação física possibilitou uma poderosa ampliação das sonoridades. Ele queria, e conquistou, um piano cantor, expressivo, brilhante, mas também malabarista, como vira no violino de Paganini.
Liszt esteve sempre atento, estudando e divulgando, a obra de seus contemporâneos, como Berlioz, Schumann, Chopin. Quando foi nomeado Kapellmeister do teatro de Weimar, Liszt usou a carta branca que tinha para proteger o jovem Richard Wagner, então exilado da Alemanha. Sua ajuda foi financeira mas também musical - ele regeu Tannhäuser em 1849, e Lohengrin, em 1850.
Liszt foi também um grande pianista - ele, que sempre ambicionou ser reconhecido como compositor, adoraria ler o início desta minha frase. Era como pianista, como homem considerado bonito, capaz de virtuosismos impensáveis ao piano, como dono de uma memória prodigiosa (foi ele quem instituiu a tradição de tocar de cor), que Liszt mais fazia sucesso. E o "pianismo", a adoração do piano e de seus intérpretes, pode ser atribuída a ele.
A gravação a seguir é de um pianista húngaro, dono de uma técnica fantástica que não apagou a beleza de suas interpretações. Georges Cziffra toca o "Grande Galope Cromático".
Como exemplo do "piano cantor" de Liszt, escolhi Liebestraum n°3, interpretada por Arthur Rubinstein.
E como síntese do piano cantor e brilhante, como do seu pensamento musical sofisticado, da sua busca por uma música que lhe permitisse a realização como criador, como artista, escolhi esta gravação feita pelo pianista Alfred Brendel, com a Orquestra Sinfônica da Rádio de Frankfurt sob a direção do maestro Eliahu Inbal, do Concerto para Piano No.2, em Ré Maior, infelizmente dividida em três partes.
Sobre o autor
- Ricardo Prado é compositor e regente

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