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João Paulo Cuenca

Notas sobre tudo e qualquer coisa

joaopaulocuenca@gmail.com

Enviado por João Paulo Cuenca -
18/11/2008
-
9:57

Tourada com psicanalistas

Na semana passada fui convidado para uma sabatina numa escola de psicanálise. Depois de subir uma escada de mármore, ocupei meu lugar atrás de uma grande mesa de mogno no segundo andar de uma casa branca. Sobre o móvel, meus cotovelos, um gravador, uma jarra d´água e uma pilha invertida de copos de plástico. Nas paredes de pé direito alto, gráficos incompreensíveis, esquemas lacanianos e quadros da divisão do sujeito. Toda a arena montada reforçava meu terror inicial.

Que, óbvio, tinha outra dúzia de motivos. À minha frente, havia uma alcatéia de psicanalistas. Quando começaram a fazer perguntas, a mesa de mogno rapidamente se transformou numa maca de autópsia. Isso é coisa que se faz com um morto, pensei. Ou com um animalzinho empalhado. E ainda: por que diabos me sujeito à isso? Busca de autoconhecimento, autoflagelação em público ou – a pior das alternativas – pura vaidade?

Depois das minhas tentativas de resposta (não às minhas perguntas, às deles), os psicanalistas mantiveram silêncio de catedral, acariciando lentamente seus queixos esfingéticos, balançando a cabeça para frente e para trás. Até que eu voltasse a falar, mergulhado num poço de constrangimento. Ou que, depois de intermináveis minutos de ausência, algum deles continuasse com a inquisição, empunhando lupas (e lanças) imaginárias.

Os psicanalistas são criaturas muito acostumadas com o silêncio - coisa que só consigo compartilhar com quem tenho muita intimidade.

Notadamente, eu mesmo.

Eles, os psicanalistas, queriam saber sobre meus livros, que leram com profundidade, e por que os escrevi do jeito que são. E me fizeram perguntas que não costumo fazer, pois sei que as respostas são todas muito desagradáveis e me custa enunciá-las. Como eram bons psicanalistas, me fizeram algumas perguntas novas – que já incorporei à minha coleção. Infelizmente, todas elas me levaram à respostas ainda mais deprimentes do que as minhas velhas conhecidas.

Apesar disso, saí da sessão de análise pública com algum alívio nas costas. Talvez a experiência psicanalítica sirva não para trazer a felicidade aos seres humanos da terra, o que me parece tarefa impossível, mas para ajudar um sujeito a ficar um pouco mais confortável com a tristeza que carrega.

***

Costuma começar com um tímido “gosto de você” cochichado entre copos, no passo desastrado de dança, na primeira fragilidade exposta. Depois, há gradações que passam por eufemismos como o verbo “adorar” e que são transmitidas em bilhetinhos ou mensagens de texto pelo telefone. A progressão do afeto declarado pode levar meses ou anos até o “eu te amo” definitivo que, como diria Barthes, só tem algum significado na primeira vez que é dito. E se o outro responde que sim (o primeiro “eu te amo” não é uma afirmação, e sim uma pergunta), cristaliza-se a única alucinação que se pode ter em dupla.

Até que dela se acorde.


Enviado por João Paulo Cuenca -
12/11/2008
-
9:05

Letra Freudiana, PRP, Portugal, Lobo Antunes etc.

Hoje, às 21hs, serei sabatinado na Escola Letra Freudiana (Rua Barão de Jaguaripe, 231 - Ipanema - Tel.: (21) 2522-3877) em evento literário-psicanalítico organizado pelo Paulo Becker. Todos estão convidados.

Temo que não me deixem sair.

***

Mudando de assunto: o blog do romancista, cavaquinista e editor Paulo Roberto Pires dentro do site da Bravo! é sensacional. Mas o PRP precisa ficar de olho na concorrência porque depois do Saramago agora até o Romário tem blog: "tô sempre na busca de ter prazer (vai na minha, parceiro) e um dos meus prazeres agora será escrever."

***

Aviso aos leitores portugueses desse blog que, em 2009, voltarei à Portugal para lançar, finalmente, uma edição lusa. 

***

Falando em Portugal:

"Depois de ganhar o Nobel, você comeu mais mulher?"

 

 

Há um programa humorístico por lá chamado "Vai tudo abaixo" e um dos seus melhores personagens é uma caricatura de brasileiro. Ele se chama Wanderley e, no vídeo acima, sacaneia olimpicamente o António Lobo Antunes, justo no ponto fraco do homem. É inacreditável. (via bibliotecariodebabel)

 ***

Também é dfícil acreditar na história que a atriz portuguesa Maria de Medeiros conta a partir do minuto 6:00 desse vídeo.


Enviado por João Paulo Cuenca -
11/11/2008
-
10:24

A noite americana

Onde você estava na noite de 4 de novembro 2008? Prepare-se para responder essa pergunta pelos próximos 50 anos.

Eu estava em um bar, comemorando o aniversário de um amigo numa daquelas mesas longas que se dividem em grupos de semi-conhecidos. Depois de uma ronda telefônica, alguém finalmente retornou da redação de um jornal: “Não tem mais volta: ganhamos”. Houve um brinde e depois tudo voltou à ruidosa e embriagada normalidade das duas horas da manhã – ainda que o mundo nunca mais fosse o mesmo.

Em momentos como esse, fica difícil escapar dos clichês: Super Barack Hussein Obama é o messias negro que irá libertar o mundo do caos. Tudo é simbólico nessa eleição: o primeiro pós-baby boomer eleito presidente dos EUA inaugura a era pós-racial na América. E também pós-neoliberal, por que não? Até o fim de 2009, o quadragésimo-quarto presidente americano deve anunciar um novo Bretton Woods, fechar Guantánamo, tirar os pés do Iraque, deixar de ignorar o protocolo de Kyoto e investir em energia limpa. Eu acredito no Green New Deal. Yes we can.

Mais difícil do que escapar dos lugares comuns é manter intocado o nosso novo-velho cinismo ao ver as lágrimas nos olhos da multidão de brancos e negros, homens e mulheres, jovens e velhos, à frente de Obama em seu discurso de Chicago. É difícil encolher os ombros numa hora dessas. O futuro presidente da América é o único líder mundial que hoje pode pronunciar a palavra “esperança” sem que isso soe oportunista ou simplesmente ridículo.

O risco mora no fato de Obama, antes mesmo de ter tomado posse, já quase não ser mais um ser humano. Também ultrapassou o status de super-homem. Ainda vivo, virou símbolo e, aguardem, logo se transformará em adjetivo. (Exemplo: “Fulano está obama hoje”. E “obama” significaria algo como über-odara, apud Caetano (“Deixa eu cantar que é pro mundo ficar odara” etc. ).

Odaras e Obamas à parte, sinto que ainda estamos em choque: nos parece difícil de aceitar que algo realmente positivo tenha acontecido em 2008.

***

Um dos bons lados da vitória dos democratas é que, com o fim da era Bush, finalmente essa onda anti-americanista vai baixar a bola. Ficou na moda durante os últimos anos, entre a elite dos subúrbios iluminados do planeta, afirmar que os norte-americanos são umas bestas quadradas e apolíticas. Isso sempre me causou graça, especialmente cá no Balneário de San Sebastián que, no último milhar de anos, notabilizou-se por eleger os piores espécimes da raça humana para governador, prefeito, deputado, vereador, síndico e presidente do clube do coração.

Levando Obama ao topo, os norte-americanos fazem justiça a uma civilização que nos trouxe o jazz, William Faulkner, a lâmpada, Elvis Presley, a Fender Stratocaster, a internet, a Coca-Cola, os Beach Boys, o delta blues, Kurt Vonnegut, Edward Hopper, a máquina de escrever, a Winona Ryder, o jeans, Bruce Wayne, Orson Welles, Hemingway, Tom Waits, Muhammad Ali, Bob Dylan, Marlon Brando, o Ipod, a revista de mulher pelada, o hamburger, os Simpsons e – last but not least – que salvou as calças da Europa duas vezes ao vencer as duas guerras mundiais do século XX.


Enviado por João Paulo Cuenca -
4/11/2008
-
11:06

Eles não vão entender nada

Diz-se que o passaporte brasileiro no mercado negro é o mais caro do mundo. Isso aconteceria porque, etnicamente, qualquer ser humano pode se passar por um de nós. Somos a mescla mais desconexa de DNA do Planeta. Por isso, o brasileiro é um disfarce que jamais despertará dúvidas. Brasileiros são ruivos e índios, brancos e negros, indistintamente e sem traço comum.

Ainda assim, andar na rua acompanhado por um turista pelo centro da cidade de San Sebastián chama mais a atenção do que caminhar abraçado a uma mulata do Sargentelli com salto de agulha e pena de faisão presa na cabeça.

Começa no metrô, onde o pequeno grupo de estrangeiros concentra as atenções do vagão. Pela cara, como disse, poderiam ser brasileiros. Mas não são pelas roupas que vestem, pelo jeito dos relógios e dos sapatos. E ainda: pelo jeito de olhar e pelo jeito de andar. O brasileiro está acostumado com calçadas esburacadas e com os labirintos humanos que se erguem pelas nossas ruas. O estrangeiro não sabe onde começar a botar os pés.

A multidão carioca, que de cosmopolita passa longe, encara os visitantes com uma contradição de sentimentos estampados na testa. Espanto, preocupação e uma ponta de orgulho desconfiado: vieram lá de longe pra ver isso aqui, o Mercadão da Uruguaiana?

Que o Brasil e o Rio de Janeiro não são para amadores, todos sabem. O gringo fica desorientado de primeira, quando no meio da multidão de gente, pedintes e homens-sanduíche, passa o rapa correndo atrás dos camelôs que carregam a mercadoria no colo, como quem leva um bebê embalado numa manta. E aí precisa-se explicar o rapa, explicar o camelô e, mais complexo, explicar a guarda municipal. Se o turista começar a olhar para cima, mais difícil: há de se tentar explicar a salada arquitetônica daquele casario do início do século XX misturado com igrejas coloniais e o paliteiro setentista do nosso centro. Não tem nada igual no mundo, alguém diz.

É o caos, é a absoluta falta de planejamento. É como se, aleatoriamente, as coisas fossem postas umas sobre as outras. É lindo, mas é também horrível – e a fronteira entre os dois se esfumaça por aqui. Do alto de Santa Teresa depois do roller coaster do bonde amarelo, mais confusão. Mansões, esgoto a céu aberto, castelos, encostas de lixo, floresta tropical, barracos, Baía de Guanabara, mulher com balde na cabeça subindo a ladeira: tudo na mesma foto.

Eles não vão entender nada.

***

“A verdade é que não faz nenhuma diferença...”

Dito isso, atraídos pelo final de semana de três dias, deram linha nos seus jipinhos rumo à abstenção bronzeada. O livre arbítrio (sempre ele) da elite da província, moradora da Zona Sul (e da Zona Norte, aliás) pode ter derrubado seu candidato. No fim da tarde de domingo, o tempo fechou.

A democracia fará com que os pôncios-pilatos de ocasião não sofram sozinhos pelo seu descomprometimento. Pelos próximos quatro, oito ou quarenta anos.


Enviado por João Paulo Cuenca -
28/10/2008
-
9:05

A Imperatriz do Maranhão

***

A tarde demora a cair. O sol castiga a cidade de Imperatriz, capital do Maranhão do Sul. Nas praças e calçadas, senhoras com vestidos até os calcanhares varrem a terra do chão com vassouras de palha. Desaparecem em nuvens de fina poeira vermelha. Alguém joga um balde d´água para ajudar a fixar a terra seca. A água quase evapora antes de encontrar o chão. O pó parece ser infinito.

Elas não vão desistir.

Ontem à noite, do avião, vi o traço semicircular de uma boca aberta pegando fogo na planície do cerrado – parecia uma representação gigantesca do sorriso diabólico do gato louco, amigo da Alice nos livros do Lewis Carroll. Mas esse não é nenhum país das maravilhas, e a boca incandescente passa longe da metáfora. Em outubro desse ano, foram doze mil focos de queimadas no estado. Na escada do avião, a cidade me recebeu com um bafo quente de cheiro de incêndio. Faz sentido que aqui não exista horário de verão.

Não há mar em Imperatriz, mas nela há algo de cidade portuária. A BR-010, Belém-Brasília, passa pelo meio da cidade, um entroncamento entre rodovias e destinos nas entranhas do país. É um entreposto rodoviário, com gente de toda a parte. Meu quarto é o único disponível no Hotel Presidente, ainda que não veja ninguém nos seus longos e silenciosos corredores de hospital.

Na Avenida Beira-Rio, fronteira do estado à margem direita do Tocantins, até o repentista que nos vende improvisos respira política na tarde em que a tarde demora a cair. As disputas entre o clã dos Sarney e “o resto” são lembradas, veladamente ou não, a todo momento. E aí acontece da conversa subitamente mudar de tom: fala-se baixo, olha-se para os lados.

No distante oeste do Maranhão, há desconfiança entre nós, os conspiradores.

É quando o povo hospitaleiro da cidade me diz que Imperatriz não é só pistolagem, como falam por aí. Que os crimes de encomenda são coisa de um passado distante da Princesa do Tocantins, assunto de tempos em que essas plagas eram conhecidas como “faroeste brasileiro”. Em dias como esses, em que as ruas e as escolas da cidade estão tomadas por livros e pelo sorriso aberto das crianças, eu não teria porque deixar de acreditar.

E tento lembrar aos meus novos amigos, enquanto tomamos cerveja ao som do calypso cuspido por uma caminhonete Hilux, que venho do Principado de San Sebastián del Río. Lá, na cidade maravilha, ainda se cometem assassinatos de manhã no principal acesso à cidade – e com 60 tiros. Pergunto se eles já ouviram falar de algo assim em Imperatriz.

Eles, claro, dizem que não.

Um desconhecido de chapéu de vaqueiro na mesa ao lado pergunta: “e pra que desperdiçar 59?”

***

Escrevo essa crônica do passado – aqui, ainda é sexta-feira, data de fechamento do caderno. Espero que, depois de domingo, o Rio de Janeiro tenha um bom motivo para sorrir.

Boa sorte a nós.


Enviado por João Paulo Cuenca -
21/10/2008
-
9:47

Mulheres apaixonadas

 

***


Eu quero um homem que me faça esquecer dos outros. E que daqui a pouco me ajude a esquecer dele mesmo.

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Eu quero um homem que me entenda e me explique.

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Eu quero um homem com quem eu me case e que depois morra. Meu sonho é ser viúva. É tão bonito.

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Eu quero um homem que me banque. Já tô de saco cheio de sair com mendigo, só tem maloqueiro na night. Você tem que se ligar nos detalhes, no relógio, na marca da camisa... E tomar cuidado com os manés que usam roupa fajuta e aqueles chaveiros de carrão pra fora do bolso da calça e que na verdade só servem pra guardar as chaves da bicicleta. A gente tem mais é que se cuidar mesmo que o negócio não tá pra brincadeira e vai ficar cada vez pior. E ainda tem essa crise, você viu no jornal? O lance é se ligar nos caras estáveis. Funcionário público, estatal... E pegar de jeito que a gente sabe como faz.

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Eu quero um homem que me faça chorar. Porque eu só chorei duas vezes na minha vida, e isso faz muito tempo.

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Eu quero um homem que, antes de tudo, me faça rir muito. E que tenha olhos também pra o que não seja ele. Olhos, ouvidos e perguntas pra mim.

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Eu quero um homem que me fotografe com os olhos.

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Eu quero um homem porque eu não agüento mais ir ao cinema sozinha.

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Eu quero um homem que seja louco por mim e que me deseje o tempo todo. Que seja complexo, que sofra, chore e converse comigo sobre as coisas mais diversas. Um homem por quem eu seja completamente apaixonada, e com quem eu queira ter um filho. Eu me recuso a acreditar que uma pessoa assim não exista porque eu já tive momentos assim antes com várias pessoas. Você, por exemplo.

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Eu digo que quero um homem assim e assado, mas, no fundo, eu quero um homem que faça tudo por mim, que viva por mim - mas que disfarce um pouco.


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