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Sobrevivência na selva da cultura de massa

oblog@paralelos.org

Enviado por Antônio Dutra -
21/10/2008
-
11:53

O grau do nosso desespero

Provavelmente como todo mundo você deve ter se deparado com as imagens daquele pequeno apartamento de periferia em Santo André, que poderia ser no Rio, em São Paulo ou qualquer outro lugar do mundo; provavelmente você deve ter se indignado com a decisão da polícia, com a decisão de invadir o apartamento quando bastaria entre os três primeiros dias forçar a desorientação do rapaz, impedindo-o de dormir e como coadjuvante faze-lo caminhar para todas as direções do apartamento forçando-o a aceitar sua situação de derrotado enquanto adversário da polícia e no amor.
Provavelmente você deve ter visto a jovem Eloá fazer descer por uma teresa (a corda de lençóis) um prato amarrado que deveria em seguida alimentar o trio dentro do apartamento e se perguntado, na sua opinião modesta e de não especialista por que raios não puseram nada na comida para dopar as três pessoas em seguida recolher cada um daqueles indivíduos sem mortos e feridos?
Provavelmente o espanto subiu ao nosso rosto quando se deu conta de que a polícia pode ter invadido o apartamento impelida pela pressão do tráfico local, que se sentiu atingido no comércio que vinha praticando ali, sem câmera, polícia ou justiça.
É muito provável que você, como eu, tenha se dado conta de que rapaz bom ou ruim, não importa, basta apenas que o jovem seja condenado pelo seu crime, e todo o resto é uma cópia de discurso, uma verdadeira “papagaiada” de bondade e perdão que se ouve da família da jovem, e que a televisão faz questão de repetir, um discurso que só cabe a justamente a famílias como estas “humilhadas e ofendidas” nessa vida marcada por esse pecado original de pobreza e esforço, que faz aceitarem como resignação e sobrevivência as inúmeras marcas da violência que a cercam e que nesse episódio trágico, a atingem.
É quase certo, que dentre um mês ou dois, tudo isso tenha virado pó, depois da venda de tantos jornais, de uma sociedade em que as páginas marrons passaram à capa e ninguém sabe ao certo o que fazer diante desses jovens, desestruturados ou não, diante do outro, diante dos dilemas que se apresentam perante nossos rostos.
Triste é perceber que o despreparo é o sinônimo de polícia seja no Rio ou São Paulo, e que não há um plano efetivo para combater justamente a cultura da violência que parece ter vindo para ficar.
Eloá viveu de 1993 a última semana, sem ter tido tempo de elaborar memórias de infância, sem compartilhar o convívio e lembrança que a gente tem ao ver amigos de longa data, não houve tempo.
Vendo toda essa semana que se foi, percebo o grau do nosso desespero engolido nos nossos gestos banais de levar a vida, seguir adiante. Aceitando mais um capítulo de uma novela, de sucesso...


amargo.


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