17/11/2008
-16:33
Maggie O'Farrell, narrativas de muitas vozes
Maggie O'Farrell nasceu em 1972 em Coleraine, uma cidadezinha de pouco mais de 20 mil habitantes na Irlanda do Norte. Publicou seu primeiro livro, "Depois que você foi embora" em 2000, e desde então lançou mais três romances onde são recorrentes os conflitos familiares e a narração repartida entre diferentes personagens. Sua estréia e seu livro mais recente, "O último ato de Esme Lennox", acabam de ser publicados no Brasil pela Record. Por e-mail, a escritora conversou com o blog sobre os livros.
Seus dois livros lançados agora no Brasil, "O último ato de Esme Lennox" e "Depois que você foi embora", são contados por múltiplos narradores. Houve motivos específicos para a senhora adotar esse formato em cada história, ou essa é simplesmente a maneira como gosta de contar histórias?
Para mim, histórias são complicadas e multi-facetadas e repartidas por numerosos pontos de vista. Eu gosto que minhas narrativas reflitam isso. Os romances foram escritos bem na ordem em que as coisas aparecem na página. Há um momento quando estou me aproximando do final dos romances em que fico com medo de deixar um fio solto, então tenho que desenhar diagramas para ajudar na ordenação das coisas. Muito da minha escrita é centrada em torno de famílias, que também são caldeirões complexos de diferentes personalidades e pontos de vista. Eu não posso imaginar escrever uma história simples, direta, com uma única voz sobre uma família, por que famílias nunca são simples e diretas - "O último ato de Esme Lennox" em particular é um romance que lida com memória e experiência. Eu não acredito que os cérebros humanos funcionem de uma forma linear, organizada. Acho que são caóticos e confusos e pulam pra frente e pra trás no tempo para fazer todo tipo de conexão. De novo, eu queria que o romance refletisse isso.
"O último ato de Esme Lennox" mostra que a sociedade inglesa do começo do século XX podia levar a repressão das mulheres a extremos de crueldade. O que te interessava nessa história?
É um romance que eu queria escrever há tanto tempo... Eu tive a idéia pela primeira vez - de uma mulher presa num asilo pela vida inteira - há quinze anos. Eu tentei escrever na época, mas não funcionou e eu acabei abandonando isso para escrever "Depois que você foi embora". Na Inglaterra nos 1990, a maior parte dos hospitais psiquiátricos estavam sendo fechados e os pacientes, expulsos. Houve muitas histórias na época sobre pessoas, em particular mulheres, que como Esme haviam sido presas por razões de imoralidade e deixadas para apodrecer. Uma amiga me contou que a sobrinha de sua avó, que acabara de morrer num asilo, havia sido posta lá aos vinte e pouco por "fugir de casa com um balconista".
A idéia nunca desapareceu e eu gradualmente reuni mais e mais histórias e exemplos de garotas que tinham sido internadas no começo do século XX por pouco mais do que serem desobedientes. Quando você começa a pesquisar um pouco mais, em bilhetes e relatórios, as descobertas são aterrorizantes. Sempre me interessei pela idéia do que acontece ao mesmo tipo de mulher - intransigente, não convencional, recusando-se a se adaptar ao papel doméstico que a sociedade preparou para ela – em diferentes momentos da história. Séculos atrás, ela poderia ter sido condenada como uma bruxa, mas há apenas 60 anos poderia ter sido declarada insana e mandada para um asilo.
Ao criar enredos e personagens, a senhora sente estar montando o palco para apresentar um certo conhecimento prévio a respeito do mundo, ou a escrita para você se torna ela própria um processo de investigação?
As pessoas com freqüência dizem que os escritores escrevem o que eles sabem. Acho que isso é verdade até um certo ponto mas acho que alguns escritores - eu incluída - escrevem sobre algo que eles não conhecem, sobre algo que não entendem. Eu, por exemplo, não entendia como você pode viver depois que alguém que você ama morre. Eu não entendia como garotas jovens eram internadas por suas famílias em asilos. E então eu queria escrever um livro sobre isso na esperança de que o próprio ato de escrever me ajudaria a entender. Então é um processo de descoberta mas também de compreensão.
Muitos escritores dizem que há momentos na escrita em que os personagens parecem assumir vida própria. Pela sua experiência, o quanto de verdade há nessa idéia?
Acho que é muito verdadeiro. O momento em que sempre sinto isso - e pelo qual sempre espero - é quando os personagens divergem do que você tinha planejado para eles. Quando eles praticamente viram para você e dizem "Não, eu não vou fazer isso." Esse é o momento em que o livro está funcionando.
14/11/2008
-16:24
O século de Lévi-Strauss, na edição deste sábado
No dia 28 de novembro próximo, Claude Lévi-Strauss vai comemorar 100 anos. A data é celebrada com debates e novos livros, no Brasil e no exterior, sobre a vasta obra do pensador. Neste sábado, o Prosa & Verso faz uma edição inteiramente dedicada ao antropólogo, que influenciou de modo decisivo todo o campo das ciências humanas na segunda metade do século XX. Mesmo que hoje em dia o projeto estruturalista delineado por ele não exerca o mesmo poder de atração que possuía em seu apogeu, há quase meio século, o pensamento de Lévi-Strauss continua vivo e complexo, gerando controvérsias e debates fecundos.
Nesta edição, a correspondente em Paris, Deborah Berlinck, entrevista o antropólogo Wicktor Stoczkowski, do Collège de France, que conviveu profissionalmente com Lévi-Strauss e que lança um livro a respeito do grande etnólogo esta semana na França. Em entrevista ao repórter Miguel Conde, a professora da USP Beatriz Perrone-Moisés conta como enfrenta o desafio de traduzir para o português a obra de Lévi-Strauss, que ganha novas edições publicadas pela editora Cosac Naify. A editora assistente Rachel Bertol conversa com o professor da UFMG Ruben Caixeta de Queiroz, um dos organizadores de "Lévi-Strauss - Leituras brasileiras", recém-lançado pela editora da UFMG.
O filósofo Slavoj Zizek dá breve depoimento sobre a importância da obra de Lévi-Strauss, que, em sua opinião, abriu todo um capítulo de interpretação ao desvendar o pensamento selvagem, ou mítico, dos índios. Em sua opinião, o estruturalismo não está morto: ainda não se está totalmente ciente, diz, dos passos cruciais que representou. Em artigo traduzido do jornal "Le Monde", Roger-Pol Droit analisa a atualidade e a importância de "Tristes trópicos", de 1955, a obra com que Lévi-Strauss se tornou célebre. De Paris, o antropólogo Marcelo Flores conversa também com Rachel Bertol sobre o filme que realizou este ano, "Trópico da saudade", que refaz a expedição de 1938 entre índios nambiquaras no Mato Grosso. Foi nesta expedição, e em outra também no Brasil, dois anos antes, que Lévi-Strauss teve seu contato direto com o pensamento selvagem, central em sua obra.
Boa Leitura
13/11/2008
-19:49
A catedral em prosa de Rainer Maria Rilke
Os cadernos de Malte Laurids Brigge, de Rainer Maria Rilke. Tradução de Lya Luft. Editora Novo Século, 224 páginas. R$ 37
Anos atrás, relendo o livro de um dos mais influentes autores de língua alemã do início do século20, José Saramago viu surgir o embrião da idéia que o levaria a escrever "As intermitências da morte". Tratava-se do romance "Os cadernos de Malte Laurids Brigge", de Rainer Maria Rilke, de volta às livrarias brasileiras após décadas fora de catálogo, pela editora Novo Século, na tradução de Lya Luft. A considerar o lançamento não menos recente, em coletâneas até então inéditas em português, de algumas das inúmeras cartas escritas por Rilke ao longo da vida, aos poucos vai se ampliando o espectro da obra desse que foi, além de autor dos célebres "Sonetos a Orfeu" e "Elegias de Duíno", um insaciável epistológrafo e contista.
Em uma carta a Rodin, datada de 1908, época em que ainda compunha "Os cadernos", Rilke se refere à prosa como uma "catedral" que deve ser construída para a solidão da consciência. Com essa mesma imagem, pode-se definir a trama de seu romance, tecida pelos relatos de amor e de morte do jovem Malte Laurids Brigge, cujas incursões pelas ruas de Paris e lembranças de infância fundem-se na construção de um único edifício. Pois é dentro desse espaço imaginário de luz e de sombra, sensações e pensamentos, que se torna real o testemunho de uma existência.
Durante o período em que o livro é escrito, entre 1904 e 1910, Rilke também conclui os poemas de "O Livro de Horas" (1905) e "Cartas a um jovem poeta" (1908). No mesmo intervalo, precisamente em 1907, a visita a uma exposição de Cézanne, no Grand Palais, em Paris, deixa-o de tal modo impactado com a obra e a vida desse artista que ele acaba por aprofundar em seu trabalho fortes relações entre pintura e poesia. Essas reverberações e nuances são reconhecíveis em muitas passagens de "Os cadernos", que não deixam de suscitar ainda um intenso diálogo do autor com os poetas que ele lê e admira, como Jacobsen e Baudelaire.
Fechando um pouco mais o foco sobre tais influências, há uma síntese poética presente no romance que perpassa toda a atividade literária de Rilke - andaimes, por assim dizer, que erigem e abrigam sua catedral e outros escritos: da vida monástica, da peregrinação, da morte e da pobreza. Eis aí as partes que subdividem "O Livro de Horas", e que, juntas, permitem entrever o caminho interno que o escritor percorreu desde muito jovem, com uma espiritualidade extracristã, até chegar aos seus últimos sonetos e elegias. Marina Tsvetáïeva, em uma carta enviada ao poeta poucos meses antes de sua morte, em 1926, reconhece nessa síntese de natureza humana "uma topografia da alma" impossível de ser desmembrada, algo que "pode ser visto pelo mais simples camponês - com os seus olhos -, atestado. O milagre: o intocável, o inacessível".
Com efeito, Rilke é um entusiasta da totalidade inseparável da vida e da morte, do terreno e do maravilhoso, do efêmero e do sublime. Toda experiência de queda ou de perda tem para ele uma força atuante que deve ser assimilada e sofrida. Posse e tarefa de cada um, a morte não é falta, e sim abundância, maturação diária, um compromisso do humano com o que lhe é humanamente inapreensível. Apenas a compreensão maior de uma existência que não exclui nem o abjeto, nem o terrível, pode fazer justiça ao amor, em tudo o que nele é também transbordante e partícipe da vida. Cioso dessa tarefa de admirar cada coisa conforme seu peso, e cada vivência de acordo com sua velocidade, Rilke se aferra ao trabalho solitário e cotidiano da escrita, orientado pelo mesmo ímpeto com que Cézanne se dedicou à pintura, colocando a si próprio em risco, sem recuar diante do difícil.
Os episódios de morte, em "Os cadernos", a exemplo da emblemática agonia do Camareiro Brigge, e as marcas do sobrenatural, também constantes nos contos do autor, falam de uma mesma reconciliação com algo prodigioso, que excede a dimensão do inteligível. O relato do herói, quando criança, diante do armário de fantasias traz outra imagem relevante desse encontro com o desconhecido, que, não por acaso, remete aos famosos versos de Álvaro de Campos, no poema Tabacaria: "Quando quis tirar a máscara / Estava pegada à cara".
Além disso, cabe destacar no romance o olhar revelador de Rilke sobre seu tempo, registro de uma modernidade hostil aos valores do passado e expatriada da noção do divino. Entram aí os retratos da juventude parisiense, as reflexões do narrador em tom de missiva, nas quais ecoam as páginas de Cartas a um jovem poeta, e, finalmente, o belíssimo trecho sobre a procura do amor na parábola do filho trágico ao final do livro.
Atravessando o espaço de quase um século, o ressurgimento de Os cadernos recupera para a atualidade, nas palavras visionárias de Malte Laurids Brigge, a interrogação de um poeta que, mais uma vez, impõe sua urgência e faz pensar: "Quem, hoje, dá valor a uma morte bem executada? Até os ricos, que poderiam dar-se ao luxo de morrer bem, começam a se mostrar relaxados, indiferentes; faz-se cada vez mais raro ter uma morte particular. Mais um pouco e será tão raro quanto ter uma vida particular".
MARIANA IANELLI é poeta, autora de “Almádena” (Iluminuras)
12/11/2008
-17:53
Conto inédito de Sonia Coutinho
Quinzenalmente, às quartas-feiras, o blog publica um texto inédito de um escritor brasileiro. "Orquídeas para Clarice", o conto de hoje, é de Sonia Coutinho, autora de "Uma certa felicidade" (2008), "O último verão de Copacabana" (2007), ambos da 7Letras e "Os seios de Pandora" (Rocco, 1998), entre outros títulos.
Conto com minhas palavras a história de Vera, tal como ela me contou, no dia em que foi internada.
Acorda muito cedo, como costuma fazer agora. Sim, agora que estou quase velha, pensa Vera, com uma naturalidade que jamais imaginaria alcançar, apenas poucos anos atrás, com relação a esse assunto. Mas, de repente, numa longa situação de divorciada sem filhos, está chegando aos 57 anos.
(E, o pior, sem se livrar dos resíduos de uma Dolorida Paixão por um homem dez anos mais novo e casado, o belo Henrique.)
Ainda está escuro, Vera acende a luz do abajur. Dá uma rápida olhada no despertador, cuja campainha jamais toca (ela sempre acorda antes da hora), e vê que são quatro da madrugada.
Na mesinha de cabeceira, junto do relógio, está o romance "A maçã no escuro" e, com a ponta presa embaixo dele, um pedaço de papel com anotações feitas por ela, dias atrás.
Vera pega o papel, lê:
"Encontrei Van Gogh, esta manhã, no Jardim Botânico.
Foi perto do Rio dos Macacos, que corre paralelo à Pacheco Leão. Dali dá para ver os carros passando na rua, mas não há nenhum ruído de trânsito, apenas o doce murmúrio da água correndo.
Fiquei algum tempo de olhos fechados, ouvindo.
Quando abri os olhos, levei um susto: havia um homem parado à minha frente. À primeira vista, não o identifiquei.
Vi apenas que era um tipo estranho e estrangeiro: pele muito clara, nariz adunco, barba ruiva, usando um chapéu com as abas bem voltadas para cima.
Quando fixei a atenção em seu olho direito, ligeiramente arregalado, o olho que ele usou como eixo de vários dos seus auto-retratos, tive a certeza: era Van Gogh.
Usava um casaco de um azul escuro mas vivo, resplandecente; e, notando que eu o observava, Van Gogh disse:
- O azul cobalto é uma cor divina, não há nada tão belo para colocar em torno dos objetos.
E prosseguiu, como se divagasse:
- Já o carmim é o vermelho do vinho, e é quente e estimulante como o próprio vinho."
Vera esconde rapidamente o papel entre as páginas do livro.
E pergunta a si mesma se deve conversar a respeito com o Dr. Fabiano. Vai ao consultório dele na próxima quarta-feira. Talvez deva tomar coragem, afinal, e contar tudo. Sim, sobre as aparições.
A leitura da anotação sobre Van Gogh a deixou com uma sensação esquisita, como se saísse de um sonho pesado - sim, esse sonho intenso que chamam de realidade, pensa Vera.
Dá um pulo da cama e, usando apenas uma velha camiseta comprida, vai até o quarto que chama de "meu gabinete" e se senta diante do computador. Acessa a internet, mas não há e-mails novos, o que aumenta sua sensação de solidão.
Segue para a cozinha, prepara um café com leite, pega umas torradas do tipo que já vem pronto e embalado e uma caixa de queijo cremoso. Enquanto toma o café, pensa outra vez em Henrique. Não é um pensamento saudável, mas não consegue evitá-lo.
Na véspera, um pintor de paredes lhe falara dele.
Uns dois anos antes, Seu Simão tinha pintando o teto do seu banheiro, que a umidade deixara cheio de bolhas e descascado. Foi indicado por Henrique, para quem costumava trabalhar.
Vera agora chamara Seu Simão para conversar sobre a pintura da sua sala, manchada por um vazamento.
Fora um vazamento esquisito. Ela estava no quarto, deitada, quando sentiu aquele repentino cheiro de coisa molhada. Correu ao banheiro, viu que havia um líquido escuro no piso. Na sala, uma parede já estava coberta por grandes borrões avermelhados.
Agora, quando acorda antes do amanhecer e vai até a sala, tem certeza de que são manchas de sangue. Sim, alguém foi assassinado no apartamento de cima e seu sangue escorreu rapidamente do teto até o chão da sua sala.
- Quero toda branco neve - ela disse a Seu Simão.
Estava praticamente tudo combinado, quando ele perguntou:
- E o Doutor?
Com um choque, Vera percebeu que se referia a Henrique.
Como ousava? Mas concluiu que devia ser por causa do indevido tom afetivo com que tratava aquele pintor, e só porque ele fora indicado por Henrique.
Enquanto pintava seu banheiro, Seu Simão encontrara Henrique mais de uma vez em seu apartamento - e devia ter tirado suas conclusões. Embora ultrajada, Vera respondeu à pergunta dele.
- Não falo com Henrique há muito tempo.
Diante disso, o pintor, animado, continuou:
- Trabalhei para ele no mês passado. Henrique deixou a mulher, está morando com uma moça bonita, muito nova. E acrescentou: - Ela tem o mesmo nome que a senhora, Vera.
Desde que pararam de fazer amor, sempre doía um pouco pensar em Henrique, mas não uma dor tão forte como ela sentiu com a revelação do Seu Simão.
A paixão por Henrique fora substituída por uma amizade-capaz-de-provocar-lágrimas. As palavras do pintor foram como uma punhalada, de punhal-que-não-pode-ser-arrancado.
Vera voltou atrás quanto à pintura da sala, mentiu que talvez os proprietários do apartamento de cima, que pagariam tudo, já tivessem falado com outro pintor.
Verificaria isso e telefonaria para Seu Simão no dia seguinte, disse - já abrindo rapidamente a porta para que ele fosse embora.
Quando acaba de tomar o café, aproxima-se da mesa da sala, onde está todo o seu material de artesanato.
Tubos de tinta, pincéis enfiados numa garrafa plástica cortada pela metade, godês, pequenos recipientes, um trapo. Desde que se aposentou como professora de francês, é o que anda fazendo. E seu apartamento deixou de ter um aspecto civilizado, transformou-se num desarrumado ateliê.
Senta-se perto da mesa, na cadeira de plástico branco onde trabalha, o chão coberto por jornais estendidos.
Pega uma caixa de madeira crua e começa a lixá-la.
Depois, despeja um pouco de tinta branca PVA numa tigela e, com um pincel e um rolinho, vai pintando a caixa e alisando a tinta.
Separa tubos de tinta - azul ftalocianina, azul turquesa, rosa meio lilás, amarelo limão, laca gerânio, sombra natural.
Na tampa, colará o xérox da foto de Clarice Lispector.
Na caixa anterior, tinha usado a reprodução de um auto-retrato de Frida Kahlo.
A esta altura, o dia já clareou, Vera apaga as luzes.
Põe a caixa meio trabalhada na mesa, em cima de um plástico. Termino quando voltar do Jardim Botânico, pensa.
Quer chegar cedo para sua caminhada diária, para aproveitar enquanto aquilo não está cheio de gente.
Toma um banho rápido, enfia umas calças de moleton, uma camiseta, uns tênis, desce pela escada mesmo até a garagem, entra em seu velho carrinho. Com o trânsito escasso das seis da manhã, chega ao Jardim em dez minutos.
Tem sempre o mesmo espanto, quando entra aqui. É lindo.
O frescor da manhã, o canto dos pássaros.
Vai caminhando.
No Jardim Japonês, espia as gordas carpas, manchadas de vermelho, branco e preto.
Mas sua favorita é a dourada, que procura com o olhar.
Segue adiante, pisando nas folhas avermelhadas, porque é outono, que cobrem a terra batida das veredas.
Parada agora na margem do Lago, observa a água caindo perpetuamente da jarra que a estátua de Tétis tem nas mãos.
Agora, está bem embaixo de um grupo de macacos, que pulam de um galho para outro. São bichos saudáveis, pêlos limpos e luzidios, suas caras quase humanas.
Quando chega ao orquidário, a porta está inesperadamente aberta, embora o guarda que fica ali de vigia ainda não tenha chegado. Aproxima-se da porta e, antes mesmo de entrar, vê uma mulher lá dentro, em meio às orquídeas.
Na vazia solidão da manhã, a mulher magra, elegante, o rosto bem maquilado, com as maçãs salientes. Seu vestido de seda estampada com pequenas flores, Vera observa. Decote quadrado, cintura justa, saia na altura dos joelhos, parecidos com os que sua mãe usava, lá pelos anos 60.
Ficam as duas ali, se encarando.
Claro, é ela, pensa Vera, é ela com a aparência que tinha, quando era jovem e casada com um diplomata.
- Clarice... - diz Vera, num sussurro.
Aproxima-se da outra com uma sensação de encontro inevitável, que mais cedo ou mais tarde teria de acontecer.
E Clarice diz, com sua voz rouca, que parece ter um leve sotaque estrangeiro (mas Vera sabe que a alteração é causada por um defeito em sua língua):
- Não se sabe de onde se vem, nem se sabe para onde se vai, mas que experimentamos, experimentamos! E é isto o que temos.
- Eu queria tanto entender - diz Vera.
- É tolice não entender - responde Clarice. - Só não entende quem não quer. Porque entender é um modo de olhar. Porque entender, aliás, é uma atitude. Como se, estendendo a mão no escuro e pegando uma maçã, a gente a reconhecesse, nos dedos tão desajeitados pelo amor uma maçã. Não peço mais o nome das coisas. Basta reconhecê-las, no escuro. E me rejubilar, desajeitada.
- Você sente esse júbilo, essa alegria? - pergunta Vera.
- Às vezes me basta tanto ser uma pessoa que acorda de manhã. Bastam-me a terra enevoada e as árvores frescas. A corrente da graça é forte, de manhã, e ter um corpo que vive me basta. Apesar de tudo, morremos estranhamente felizes: submissos à perfeição que nos usa.
Vera pronuncia palavras ao acaso.
- Amor, morte, mistério.
E Clarice diz:
- Quem aceita o mistério do amor aceita o da morte; quem aceita que um corpo que se ignora cumpra o seu destino, então aceita que o nosso destino nos ultrapassa, isto é, morremos.
Clarice se cala e Vera percebe que ela se movimenta, vagarosamente, em direção à saída do orquidário.
- Clarice... - fala Vera, baixinho, com uma vontade imensa de lhe oferecer algumas orquídeas, escolhendo amplamente entre as brancas, amarelas, lilases, pintalgadas, de todos os formatos.
Mas fica paralisada, muda. E, quando sai do orquidário, vê que Clarice desapareceu.
Caminha para o estacionamento do Jardim, entra em seu carro e segue para seu apartamento, onde o cotidiano se reinstala.
Vera volta a pensar em Henrique.
Uma longa história. Que se passou, mais do que em qualquer outra parte, em sua imaginação mesmo.
Agora, tem um forte impulso e nem pensa em resistir - vai até o telefone e liga para o celular dele, o que não fazia há muito tempo.
Pergunta:
- É verdade que você se separou da sua mulher e se casou de novo?
- Mas que idéia, de onde você tirou isso? - diz Henrique.
- Seu Simão, o pintor, me contou.
- Ele não sabe do que está falando.
- É com aquela moça com quem vi você, outro dia, em Ipanema, que está casado agora?
- Ora, quer saber de uma coisa? Quem me dera que eu estivesse mesmo casado com ela!
Vera desliga, arrasada. E claro que jamais saberá se é verdade ou mentira, Henrique nunca lhe deu sequer seu endereço, tem apenas o número do seu celular.
Vera vai para a cadeira de plástico branco, junto da mesa com o material de artesanato.
Dá uns últimos retoques na pintura da caixa e depois cola na tampa o xérox de uma foto de Clarice Lispector.
Mais tarde, antes de dormir, abre as últimas páginas de "A maçã no escuro" e lê: "E, quem sabe, a sua seria a história de uma impossibilidade tocada. Do modo como podia ser tocada: quando dedos sentem no silêncio do pulso a veia."
Não, claro que não dirá nada sobre isso ao Dr. Fabiano, quando for ao consultório dele, na quarta-feira.
11/11/2008
-10:52
Um diálogo entre Frei Betto e Domenico De Masi
Diálogos criativos, de Domenico De Masi e Frei Betto. Mediação e comentários: José Ernesto Bologna. Editora Sextante, 144 páginas. R$ 19,90
O que esperar de uma conversa entre um sociólogo italiano declaradamente laico, que rejeita a doutrina oficial da Igreja, e um teólogo brasileiro? Mais: o que esperar de um debate entre dois interlocutores que parecem sentir o mundo em extremos, aparentemente, opostos? Em um primeiro momento, o encontro entre Domenico De Masi e Frei Betto, reunido no livro "Diálogos Criativos", pode soar como pretexto para reunir dois intelectuais, igualmente preciosos, mas diametralmente divergentes. Dentro desta expectativa, é natural que se busque não um debate, mas um embate de forças e idéias.
No entanto, contrariando as perspectivas mais alarmistas, o que se encontra nesta conversa, mediada pelo psicanalista e educador José Carlos Bologna, é um compartilhamento de visões de mundo, ora opostas pelas diferenças inerentes aos debatedores, ora complementares pela natureza dos temas discutidos. Mas se engana quem imagina que a conversa se pauta tão somente nos antagonismos que marcam os binômios Ciência X Fé, Corpo X Espírito, Cultura X Natureza.
O antagonismo, claro, também pontua a conversa. O discurso afetuoso e otimista de Frei Betto é, em algumas ocasiões, abafado pela fala pragmática e cientificista de De Masi, que se vale de toda uma vasta (e também saborosa) fundamentação histórica para construir sua argumentação. Por isso, em muitos e animados momentos, a conversa ganha, fatalmente, vulto de arena intelectual, onde dois leões das idéias tentam, a todo custo, exibir suas garras.
Apesar disso - e para além das simplificações que meramente isolam os interlocutores em compartimentos distintos - é admirável reconhecer os pontos de contato que os costuram. "Os perigos contidos nos extremos sugerem a busca do equilíbrio", escreve Bologna no prefácio. É a partir desta premissa que o livro consegue ultrapassar as fronteiras - territoriais, intelectuais e ideológicas - que afastam os debatedores, e ganha conotações mais reflexivas e, por isso mesmo, ricas. É aí que o embate torna-se debate. Melhor, diálogo.
De Masi e Frei Betto passeiam por assuntos tão contemporâneos quanto atemporais: futuro, passado, presente; valores permanentes e transitórios; poder e participação; realidades naturais e verdades culturais. Entre a fina teia que trama o diálogo, os fios da conversa perpassam o avanço tecnológico e a sociedade de consumo; Filosofia, Teologia, História e Política. No fundo de todas estas questões, uma só busca: a construção da cultura, como meio, e fim, da educação.
Destinado especialmente a professores e educadores, o livro dialoga com conceitos bastante caros ao sujeito pós-moderno. Aliás, é a pós-modernidade o ponto de partida da conversa. Logo de início, em uma esclarecedora afirmação, Frei Betto resume o espírito deste tempo: "vivemos, hoje, não uma época de mudanças, mas uma mudança de época". Para ele, a cultura "globocolonizada" e a queda do Muro de Berlim - que "soterrou um grande valor da humanidade, a utopia" - representam não ameaças, mas desafios deste nosso tempo. "É como caminhar na direção do horizonte. Nunca haveremos de atingi-lo, por mais que caminhemos. Mas é ele que nos abre o caminho".
Afastado do discurso poético e metafórico construído por Frei Betto para pensar o futuro, Domenico De Masi utiliza a História como instrumento para compreender o presente. Sobre a Globalização (ou, como quer Frei Betto, "globocolonização"), De Masi afirma: "A globalização é um instinto humano. Os seres humanos sempre buscaram globalizar (...), explorar novos mundos, ver novos países, trocar mercadorias. Cabe, porém, distinguir claramente a globalização de igualdade entre países que fazem intercâmbio entre si de mercadorias, informações, socorros, sem prevalecer um sobre o outro, da globalização assimétrica, caracterizada por um país que impõe a todos os outros as suas mercadorias, os seus produtos, os seus valores, o seu modelo de vida".
A criatividade do diálogo, sugerida no título do livro, se pauta nas diferentes visões de mundo dos debatedores - e na forma como cada um as descortina. Natural, portanto, que o resultado deste encontro venha dar luz à tolerância. De ponta a ponta, a tônica da conversa é mediada pela idéia da "discordância sem discórdia". A tolerância resultante deste encontro não funciona apenas como amortecedor de idéias dissonantes, mas como ferramenta cada vez mais necessária à convivência entre os sujeitos. Permitir a coexistência, pois, como afirma Bologna, "onde não couber distinção haverá extinção".
*VANESSA PAIVA é Mestre em Comunicação Social pela UERJ, jornalista e professora
10/11/2008
-15:11
Gary Shteyngart fala sobre 'Absurdistão'
Gary Shteyngart nasceu na Rússia em 1972. Aos sete anos, mudou-se para os Estados Unidos, onde vive até hoje. Depois do romance de estréia "The russian's debutante handbook" (2003), onde narra em tom satírico a vida de um grupo de imigrantes russos em Nova York, Shteyngart acertou as contas com seu país natal em "Absurdistão" (Rocco, tradução de Maira Parula e Daniel Frazão), recém-lançado por aqui. Eleito um dos dez melhores livros de 2006 pelo "New York Times", o romance mostra uma São Petersburgo povoada por mafiosos e oportunistas, onde o protagonista Misha Vainberg tem crises de melancolia e tenta de qualquer jeito conseguir um visto para os Estados Unidos, enquanto dissipa em bebedeiras, banquetes e antidepressivos a fortuna criminosa de seu falecido pai. Em busca de um passaporte belga, acaba no Absurdistão, país que parece um resumo do que há de mais farsesco na política internacional contemporânea. Por e-mail, Shteyngart falou ao GLOBO sobre a obra.
Não apenas o Absurdistão, mas o mundo inteiro assume um ar irreal em seu romance. É assim que você vê nosso tempo?
A tarefa do satirista ficou ao mesmo tempo mais fácil e mais difícil durante o governo Bush. Mais fácil por que a imaginação não precisa se esforçar tanto para criar um enredo inacreditável, mas mais difícil por que assim que se pensa numa ofensa contra a humanidade, outra ainda pior já está surgindo.
Vista pelos olhos de Misha, o narrador do romance, a vida contemporânea é falsa e superficial. Esse tom desencantado, ainda que irônico, surgiu em função dos universos que o livro explora (a máfia russa, a elite política e econômica internacional) ou se dirige ao mundo atual em geral?
Estes SÃO tempos falsos e superifciais, seja você um milionário russo ou um operário búlgaro. Toda geração diz viver no pior dos tempos, mas definitivamente existem picos e vales na história da humanidade. Agora mesmo um enorme império está caindo de joelhos com o estrondo de um elefante derrubado. As conseqüências serão sombrias.
A sátira, ao tornar os personagens risíveis, também os torna chapados. Você às vezes sente que para fazer humor tem que deixar algumas coisas de fora, tornar as pessoas mais simples do que de fato são?
Esse é o problema com a escrita humorística. Você anda sempre numa corda bamba. É difícil fazer um livro ao mesmo tempo “hilário e triste”, como Graham Greene falou de “Pnin”, de Nabokov. Minha maior preocupação era que Misha, o protagonista, fosse crível e que o leitor sentisse sua mistura de dor e humilhação. E eu de fato acredito que mesmo a melancolia e a mágoa podem ser muito engraçadas e base de entretenimento.
Como Misha, você nasceu na Rússia e foi morar nos EUA, só que mais cedo e por mais tempo. Como você se sente em relação aos dois países?
Tanto a Rússia quanto os Estados Unidos foram enormes decepções. Por que eu não nasci holandês ou norueguês? Ou brasileiro, aliás? Adaptar-me aos EUA depois da Rússia exigiu que eu perdesse em torno de metade da minha inteligência e desejasse o dobro de itens de consumo. Foi o primeiro desastre da minha vida.
Ano passado você escreveu um belo ensaio para a “New Yorker” sobre assistir Cocoon com seu pai numa época em que começava a entender a idéia de mortalidade. No texto, você falava de ir ao cinema com ele como um momento de maravilhamento conjunto diante das cultura americana. O cinema ainda é importante para você?
Hoje alguns dos “romances” mais interessantes dos Estados Unidos são as longas séries que passam na HBO, como “Sopranos” e “The Wire”. Obviamente elas não são romances de fato, mas contêm mais ritmo e desenvolvimento de personagens do que a maioria das coisas que estão nas prateleiras. É um sinal importante que tantas pessoas inteligentes tenham desistido de se comunicar com a audiência por meio de palavras. A escrita e a leitura estão entre as primeiras coisas a desaparecer quando uma civilização flerta com o colapso.
Como vê a importância dos autores imigrantes para a literatura americana?
Gosto de Saul Bellow, que foi meio que um imigrante (nascido em Montreal). Acho que alguns dos melhores romancistas nos EUA hoje são imigrantes, como Akhil Sharma da Índia e Chang-rae Lee, da Coréia.
8/11/2008
-8:00
‘Acho que estava na hora’, diz Loyola sobre Jabuti
Um misto de surpresa e felicidade veio junto com a pequena estatueta dourada em forma de jabuti recebida há uma semana pelo escritor Ignácio de Loyola Brandão, de 72 anos. Hoje ela o espreita em sua mesa de trabalho, ao lado do computador, enquanto ele escreve. O espanto com o prêmio de Livro do Ano de Ficção para “O menino que vendia palavras” (Objetiva) ficou no passado e deu lugar a uma alegria serena, por saber que o Jabuti fez justiça a uma carreira de mais de quatro décadas.
— Acho que merecia, não vou ser modesto. O prêmio faz justiça a uma carreira de 43 anos, sem nunca desistir, com alguns sucessos, alguns fracassos. Reflete uma batalha que não é só minha, é de uma geração. Acho que estava na hora — disse Loyola em seu escritório no bairro de Pinheiros, em São Paulo.
“O menino que vendia palavras” ficou em segundo lugar na categoria infantil do Jabuti de 2008 e surpreendeu ao derrotar o favorito, “O filho eterno” (Record), de Cristovão Tezza, na categoria Livro do Ano de Ficção. Na solenidade da premiação, Loyola Brandão estava sozinho na Sala São Paulo. Normalmente, os editores acompanham os escritores, ainda mais aqueles que têm chances de premiação.
— Eu não tinha nenhuma expectativa de ganhar. Primeiro porque admiro muito o livro do Cristovão e o admiro como escritor. Segundo porque a mídia estava em cima e já dizia que o prêmio era dele. Ele já havia ganhado outros quatro, só faltava esse. E deve ganhar o Prêmio São Paulo. Tomara que ganhe. Foi muito engraçado. Já estava satisfeito com meu premiozinho. Achei que o apresentador tinha se enganado. Fiquei meio atônito e ao mesmo tempo muito contente — lembra Loyola.
Com 31 livros, o autor disse ter percebido a capacidade de ainda se emocionar.
— Tenho um monte de livros que dizem ser importantes, “Zero”, “Não verás país algum”. Nunca receberam prêmios. Fui ganhar com essa memória de infância transformada em conto. Achei bonito e gostoso. Porque aí você vai se renovando. Quando escrevi “Zero” eu tinha 40 anos. “Não verás...” foi há 25 anos. Agora, aos 72 anos, dou uma volta de novo.
E se pudesse escolher um dos seus livros para premiar, qual seria?
— “Dentes ao sol”, um dos meus favoritos. É baseado em uma pessoa real de Araraquara, um amigo que enlouqueceu. Tinha talento imenso, queria escrever, mas nunca tentou. Nunca saiu de lá. Até que percebeu tudo e ficou louco. É quase uma tentativa de fazer um “Encontro marcado”.
O escritor conta que levou muito tempo para escrever “Dentes ao sol”, em 1962.
— Quando terminei, era um horror. Engavetei o livro e voltei a ele 13 anos depois, em 1975. Levei três meses para reescrever. É meu maior fracasso. Vende pouquíssimo e teve poucas críticas. Mas quem lê adora. Acabou de sair uma tradução dele nos EUA. Se algum dia um livro meu ficar, gostaria que fosse este.
O cronista e o escritor de livros infantis assumiu o lugar do romancista, diz Loyola, que há sete anos tem um romance inacabado na gaveta.
— Não consigo mais continuar a trabalhar no romance porque não tenho interesse. Estou numa fase em que talvez tenha terminado o romancista e continua o cronista e o homem que escreve livros infantis.
Segundo o autor, repousa à espera de “um enorme polimento” a história de um homem e uma mulher que se vêem de relance numa rodoviária e passam toda a vida se procurando numa cidade estranha aos dois. Em meio à ação principal, a tentativa de encontro do casal, há uma série de histórias paralelas, contos dentro do romance.
Fazer com Araraquara o que Fellini fez com Rimini
Muito mais avançado está o novo livro infantil de Loyola, “Os olhos loucos dos cavalos cegos”, cuja primeira versão já está pronta. O escritor volta novamente à sua infância em Araraquara, desta vez para se reconciliar com o avô paterno, que ganhava a vida como carpinteiro e um dia, ao se encantar com uma foto de um carrossel, decidiu construir um circo de cavalinhos.
Levou um ano e meio para esculpir à mão o brinquedo iluminado por lamparinas que encantou crianças em várias cidades do interior, até um garoto travesso acertar uma pedra em uma das lâmpadas e incendiar o circo de cavalinhos, destruindo tudo. Só restaram os olhos de vidro dos cavalos, que o avô de Loyola passou a noite recolhendo das cinzas.
— Quando eu tinha uns 10 anos eu e um primo achamos na gaveta uma caixa com as bolas de vidro e fomos brincar na rua. Perdemos todas. Meu avô ficou deprimido. Apesar de não contarmos, meu avô sabia que fomos nós. De Natal, ele me deu a caixa vazia e disse que era para eu guardar as coisas boas da minha vida.
O retorno à infância e o resgate da história de Araraquara, sua cidade natal, são temas cada vez mais caros ao escritor.
— Sinto-me um pouco guardião das histórias da minha cidade, sem megalomania. No fundo, eu gostaria de fazer com Araraquara o que Fellini fez com Rimini em “Amarcord”.
‘Troféu restrito à qualidade’
Esta não foi a primeira vez e talvez não seja a última em que a escolha do livro do ano do Jabuti causa polêmica. Nenhum editor, crítico ou acadêmico discute a qualidade do livro de Ignácio de Loyola Brandão. Mas como ele não era o favorito — até o autor se surpreendeu — acirrou-se o debate sobre os critérios do mais antigo prêmio de literatura do Brasil.
O curador do Jabuti, José Luiz Goldfarb, explica que a votação para os livros do ano nas categorias ficção e não-ficção é aberta aos mais de 500 filiados da Câmara Brasileira do Livro, além dos jurados que escolhem os três premiados de cada categoria. Estes recebem uma cédula com os livros premiados já divididos nas categorias ficção e não-ficção.
— O troféu está restrito à qualidade. Já o livro do ano, cuja votação é mais aberta, envolve outros critérios, inclusive o mercadológico. Se eu não acreditasse nesta fórmula, já teria mudado — explica Goldfarb.
Ciente das críticas, ele enumera sugestões de mudanças.
— Há quem acredite que a votação para os livros do ano deveria ser feita só pelos jurados. Ou que apenas os primeiros colocados em cada categoria pudessem ser finalistas para livro do ano. Outra idéia é que a votação para livro do ano fosse aberta para o público em geral — diz ele.
4/11/2008
-18:25
Os dias em que Faulkner esteve no Brasil
Dias de Faulkner, de Antonio Dutra. Imprensa Oficial, 136 páginas. R$ 25
Realidade e ficção. Universos distintos mas nem sempre distantes. Cada vez mais vemos textos jornalísticos e científicos se apropriarem de recursos e questões da ficção. Por outro lado, a literatura contemporânea vem bebendo na fonte da realidade, dos fatos concretos, dos acontecimentos palpáveis. E construindo uma nova forma de ficção. O livro de estréia do escritor Antônio Dutra, "Dias de Faulkner", segue essa vertente. Nele o jovem escritor narra a vinda ao Brasil do romancista norte-americano William Faulkner para o I Congresso Internacional de Escritores realizado em São Paulo, em agosto de 1954.
Faulkner veio ao Brasil para este congresso e de DC-6 da companhia Braniff Airways. Isto é fato. Os jornais da época confirmam. A partir deste e de outros fatos, Dutra vai elaborando versões possíveis e imaginárias para a estadia do escritor na terra brasilis. Faulkner era conhecido como um escritor melancólico, tímido e avesso a badalações. Chega no Brasil já como ganhador do Prêmio Nobel, que recebera em 1949. Era portanto um autor consagrado e o livro "O som e a fúria", considerado sua obra-prima, tinha mais de 20 anos de publicação. A imprensa aguardava sua chegada, o Consulado dos Estados Unidos estava a postos para receber seu ilustre cidadão, assim como os escritores e intelectuais "nativos" esperavam encontrá-lo. Havia muita expectativa. Aliás aquele foi um mês de muitas expectativas. O país estava em ebulição, o Governo Vargas entrara em crise e seu desfecho começava a ser traçado. Em termos urbanos, a cidade de São Paulo já tinha ares de grande metrópole e lutava para não parecer provinciana, principalmente aos visitantes estrangeiros. Um dos méritos do livro de Antonio Dutra é exatamente o de captar o clima, tanto do país quanto da cidade, e transportar o leitor para aquela momento. O escritor realiza assim um duplo movimento, reflexo de um duplo olhar. O olhar estrangeiro de Faulkner para "a dura poesia concreta de suas esquinas", como canta Caetano Veloso sobre São Paulo, e o olhar de quem é brasileiro, e que, mesmo sendo de outra época, é capaz de imaginar a cidade nos anos 50.
Há um contraponto presente no livro: ora o foco é a subjetividade do escritor norte-americano, ora é o cenário politico brasileiro e mundial, que surge como pinceladas sutis de realidade. É o caso da menção ao atentado ao jornalista Carlos Lacerda, na Rua Tonelero, sem citar nomes ou quando se refere à notícia do "New York Times" sobre o "livro branco" publicado pelo Governo dos Estados Unidos sobre a Guatemala e a influência comunista na América Latina. Ainda que Faulkner não estivesse muito preocupado com nenhum desses acontecimentos.
A concisão da narrativa de Antonio Dutra remete a uma escrita jornalística, a uma forma seca, direta, que se opõe aos inúmeros caminhos que a ficção lhe permitiu criar para um escritor e uma "simples" viagem. Uma viagem em que percorre a cidade de São Paulo e apresenta personagens "verdadeiros" do meio cultural como Lasar Segall, Di Cavalcanti e José Geraldo Vieira (personagens que ele pode ou não ter encontrado, dependo de qual das versões se considera). Uma delas descreve a expectativa da chegada do escritor na festa para os congressistas na casa dos Warchavchik, na Vila Mariana. "Os fotógrafos se acotovelavam para, entre as mesas, enquadrar o melhor ângulo daquelas personalidades. A noite continuou, alegre, divertida, internacional, com mais de trezentos convidados, dentre eles Lasar Segall, José Geraldo Vieira, Di Cavalcanti, Cecília Meireles, um cônsul e uma viscondessa. Ao encontro faltou apenas um convidado, o que roubou um pouco do brilho do convescote". Ausência, se é possível imaginar, devido ao excesso de bebida e também ao desinteresse em participar do evento de escritores. Como Faulkner explica no livro. "A verdade é que não gosto de conhecer escritores nem ter contato com eles".
Destaque da literatura contemporânea brasileira, mesclando ficção e realidade, pesquisa e romance, Bernardo Carvalho produz uma obra que brinca com estas fronteiras, criando uma escrita muito autoral. Antonio Dutra segue um caminho semelhante em seu primeiro livro, embora tenha pegadas próprias.
Muito já se falou sobre a arte de narrar. Walter Benjamim enfatizava a importância da narrativa em si mesma. A seu ver, a narrativa trazia a força da oralidade e ao leitor não era necessário explicar nada. Não havia preocupação com a veracidade, apenas com a verossimilhança - o que conta é que o autor seja capaz de fazer o leitor acreditar na sua história. Na sua versão da história. E isso Dutra faz bem. Se Faulkner em São Paulo agiu e pensou da maneira ou das maneiras como descreve, não é o fundamental. Somos levados a acreditar que certamente ele poderia ter agido e pensado assim.
Fica evidente que o livro é fruto de pesquisa minuciosa e de um mergulho na psiquê de seu personagem. Pesquisa sobre os fatos - como a vinda de Faulkner ao Congresso - e mergulho na sua personalidade e na sua obra. Sem explicá-lo através dos seus livros, nem tentar imitá-lo em seu estilo, Dutra traz a densidade da literatura de Faulkner para compor o "seu " Faulkner. Isto não é tarefa simples, muito menos para iniciantes.
"Dias de Faulkner" foi editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo como parte do Prêmio da Meet (Maison des Ecrivains Etrangers et des Traducteurs de Saint-Nazaire) Jovem Literatura Latino-Americana de 2008. O objetivo da Meet é descobrir jovens talentos, publicando a obra no país de origem e na França em versão bilíngüe. Além disso, o escritor recebe uma bolsa e reside dois meses na Meet em Saint-Nazaire, onde são realizados encontros internacionais com 30 escritores estrangeiros. Encontros parecidos com o que trouxe Faulkner até os trópicos e inspirou Dutra a recriá-lo.
ISABEL TRAVANCAS é antropóloga e professora da Escola de Comunicação da UFRJ
3/11/2008
-0:01
Marieta de Moraes Ferreira e os casamentos no Rio do século XIX
A história familiar de um casal que morou em Nova Friburgo nos anos 1930 serviu de ponto de partida para a historiadora Marieta de Moraes Ferreira se embrenhar por uma ampla rede de parentescos que a levou até imigrantes que se fixaram no Rio de Janeiro no século XIX. A partir da pesquisa, ela escreveu o recém-lançado "Histórias de famílias: alianças, casamentos e fortunas" (Léo Christiano Editorial), onde mostra como os casamentos eram alianças estratégicas para as famílias fluminenses oitocentistas, e contesta teses estabelecidas sobre os fazendeiros da região. Por e-mail, ela falou ao GLOBO sobre a obra.
Nas últimas décadas, a pesquisa histórica passou por uma crescente fragmentação, o que criou uma discussão sobre a possibilidade de formarmos alguma visão de conjunto a partir dos muitos enfoques específicos desenvolvidos. Como o mergulho em trajetórias familiares pode auxiliar em nossa compreensão do Brasil?
De fato, a historiografia mais recente tem evitado grandes generalizações baseada, sobretudo, na crítica aos grandes modelos estruturais que vigoraram até a década de 1970. Foi a partir da valorização das minorias num primeiro momento, e posteriormente dos indivíduos que ficaram patentes os problemas de visões excessivamente generalizantes. Nos últimos anos, as novas correntes historiográficas ligadas à micro-história revalorizaram o papel dos indivíduos comuns na história e indicaram caminhos e estratégias para a compreensão de suas trajetórias.
Em torno dessas figuras chaves selecionadas para uma pesquisa, podem emergir vários outros personagens que nos permitem complexificar essa teia de relações de parentesco e visualizar, através de histórias singulares, circunstâncias e conjunturas de uma história mais ampla. Com trajetórias pessoais é possível compreender os estilos de vida, as visões de mundo, as estratégias de ascensão social e de acumulação de riqueza. O acompanhamento dessas histórias de vida nos permite, enfim, captar aspectos importantes da gestão dos seus cotidianos e das lutas travadas para sua sobrevivência.
Através desses estudos de caso, podemos rever teses consagradas e correntes na historiografia brasileira. O exemplo da trajetória de João Antonio de Moraes, I Barão das Duas Barras, de seus filhos e netos, que se estabeleceram inicialmente na região de Cantagalo, e mais tarde no município de São Francisco de Paula, atual Trajano de Moraes, reforça as teses que questionam a idéia de que os fazendeiros de café fluminenses ficaram aferrados à escravidão e foram incapazes de pensar estratégias para enfrentar a crise do trabalho escravo que então se avizinhava. O foco nessa região pouco estudada permite também acompanhar os impactos da expansão do trabalho livre e a emergência de uma nova onda cafeeira, no Estado do Rio, já no período republicano que se prolongou até a crise de 1929. As práticas econômicas dos descendentes do Barão das Duas Barras indicam a diversificação de investimentos tanto como emprestadores de dinheiro, como na aquisição de imóveis urbanos, como na continuidade da exploração agrícola e sua capacidade de enfrentar a instabilidade que marcou a transição da monarquia para a república no Brasil.
Poderia citar alguns dos personagens de sua pesquisa e descrever suas trajetórias, naquilo que em sua opinião elas têm de mais significativo?
Neste livro, a partir de aliança matrimonial de um casal, que nos anos 1930, residiu em Nova Friburgo, pretendemos reconstruir uma rede de relações entre seus diferentes grupos familiares. A partir do casal em questão, elegemos entre seus ascendentes, para nossa pesquisa, algumas figuras chaves: uma imigrante suíça Marianne Joset, que integrou o conjunto de fundadores de Nova Friburgo em 1819; um filho de imigrante português de Braga, José Antonio Marques Braga Filho armador no Rio de Janeiro nas décadas de 1820 e 1830; três irmãos filhos de um comerciante de São João del Rei, imigrante dos Açores, Galdino Emiliano das Neves, Galeano Emilio das Neves e Joviano Emilio das Neves que decidiram tentar a vida na Corte e depois migraram para Nova Friburgo; e finalmente, um tropeiro mineiro, João Antonio de Moraes que se transformou em fazendeiro e depois em Barão do Café, na região de Cantagalo. Em torno dessas figuras chaves emergiram vários outros personagens que nos permitiram compreender como se estruturam relações de parentesco, estratégias matrimoniais, os mecanismos de acumulação de capital, os processos de transmissão de heranças que, apesar de fazerem partes de histórias singulares, nos permitem vislumbrar aspectos do funcionamento global da sociedade em questão.
Um ponto central que se pode perceber, e que recebeu nossa atenção especial na análise dos vários ramos familiares dos quais descendem Adelaide (Pequenina) e Vicente, são as estratégias matrimoniais concretizadas como instrumentos para a construção de alianças e redes de solidariedade para alavancar recursos financeiros.
Outro aspecto a destacar são as estratégias matrimoniais concretizadas como instrumentos para a construção de alianças e redes de solidariedade para alavancar recursos financeiros, como as adotadas pelos ascendentes do casal que se tomou como ponto de partida para a pesquisa.
A importância das alianças matrimoniais pode ser verificável tanto para os descendentes da imigrante suíça Marianne Joset Salusse, como para os do barão de café João Antônio de Moraes, ou os parentes dos Neves, comerciantes de São João del Rei. Cada um desses grupos familiares acionou essas possibilidades de maneiras distintas.
No caso de Marianne, imigrante, envolvida com atividades comerciais urbanas de pequeno porte, com poucos recursos financeiros e interessada em integrar-se no mundo dos grandes proprietários nacionais, seu objetivo era buscar alianças matrimoniais para seus filhos fora do seu núcleo de origem, os imigrantes suíços. Igualmente, os descendentes de José Antônio Marques Braga, comerciante na Corte, e de José Antônio das Neves, comerciante em São João del Rei, buscaram casamentos fora da sua rede de relações familiares.
Diferentemente, João Antônio de Moraes, senhor de terras e escravos, na região de Cantagalo, desde o primeiro momento, adotou como estratégia para seus enteados e filhos, casamentos endogâmicos, fosse com os sobrinhos de sua mulher, ou com seus próprios sobrinhos. Sua expectativa era que essa prática não só garantisse a permanência de fortuna no seio familiar, mas também estruturasse essa grande rede de relações que permitisse assegurar seus recursos sociais e políticos e desse sustentação à sua autoridade e poder.
A opção pela endogamia permitia que as sucessivas gerações, ao se casarem entre si, criassem na prática um grupo portador de características identitárias, a existência de antepassados em comum e recursos para conquistar posições políticas. Essas práticas além de sustentarem a coesão do grupo do grupo familiar estimulavam a cumplicidade com outros estratos sociais, garantindo a fidelidade dos segmentos subalternos, lavradores e escravos.
Em alguns momentos do livro, ao descrever seus personagens, você esboça os traços de personalidade deles. Como encontrar esses traços nas fontes de pesquisa, e o quanto você sentiu-se certa de que os estava retratando de forma precisa?
Diferentes fontes de pesquisa foram utilizadas (registros paroquiais (batismo, casamento e óbito), inventários, testamentos, cartas, fotografias, dentre outras). As cartas, por exemplo, podem fornecer traços da personalidade, por serem fontes de caráter eminentemente pessoal. Mesmo os testamentos, fontes de natureza jurídica, por exemplo, podem revelar afinidades, afetos, preocupações religiosas, quando são feitas dotações para escravos, agregados, familiares, instituições de sociabilidade. Um outro exemplo pode vir da análise de um conjunto de escrituras para aquisição de terras, ou empréstimo de dinheiro, que nos permite captar o espírito empreendedor de um dado indivíduo, ou ainda, o equívoco de suas escolhas. É através da familiaridade do pesquisador com essas várias fontes que podemos inferir traços da personalidade e do comportamento dos atores em questão.
2/11/2008
-12:03
Sobre o Jabuti
Ninguém duvida que o jornalista e escritor Ignácio de Loyola Brandão tenha todos os méritos possíveis nas letras e que seja merecedor de vários Jabutis, muito pelo contrário. Em 2000, inclusive, o autor de "Não verás país nenhum" (1981) já levara o troféu de primeiro lugar na categoria contos por "O homem que odiava a segunda-feira". Mas será que o livro infantil "O menino que vendia palavras" (Objetiva) mereceu, de fato, o título de Livro do Ano de Ficção, categoria máxima do prêmio organizado pela CBL, como se viu na sexta-feira?
É bom lembrar que o livro de Loyola tinha como concorrentes romances como "O filho eterno" (Record), de Cristovão Tezza, raríssimo caso de sucesso de crítica e de público leitor nos últimos tempos; "O sol se põe em São Paulo" (Companhia das Letras), de Bernardo Carvalho; e "Antônio" (34), de Beatriz Bracher, que dividiu um (talvez discutível, mas inegavelmente honroso) segundo lugar com o português António Lobo Antunes ("Eu hei-de amar uma pedra", Alfaguara) no Portugal Telecom. Isso sem falar de outros candidatos "jabutizados" da área de contos e poesia, esta última com nomes como Ivan Junqueira e Paulo Henriques Britto.
É bom lembrar também que a obra de Loyola, um bonito caso de amor pelas palavras e pela literatura narrado por um menino (é baseado nas próprias memórias do autor), não venceu em sua categoria. O primeiro lugar coube a "Sei por ouvir dizer" (Edelbra), do mestre Bartolomeu Campos de Queirós, que acabou de conquistar, dia 24 de outubro, o IV Prêmio Ibero-Americano SM de Literatura Infantil e Juvenil pela sua longa e celebrada trajetória. O regulamento do Jabuti permite que isso aconteça, mas não se trata de obedecer ou não a ele.
Sem querer cometer injustiças, fica a nítida impressão de que 1) ou premiaram Loyola pelo conjunto da obra, o que não é (ou não deveria ser) o objetivo do Jabuti, criado para reconhecer livros publicados ao longo do ano ou 2) os votantes acharam que seria demais dar outro prêmio a Tezza, o favorito para o posto, que já conquistou outros quatro títulos para seu romance.
Se era a hora de reconhecer a importância da literatura infanto-juvenil no incentivo à leitura nesse país de tão poucos leitores, que se premiasse então o próprio Bartolomeu. Se era para ser "do contra" e não botar mais azeitona na empada de uma obra já tão vitoriosa, foi uma bola fora. Ficou no ar o recado de que é um pecado premiar o óbvio, mesmo que ele se faça merecedor da honra.
Em qualquer dos casos, parece uma interpretação um tanto equivocada do merecimento de um prêmio. Não será a primeira nem provavelmente a última, mas é para se pensar.
1/11/2008
-9:00
José Saramago fala sobre 'A viagem do elefante'
Leia abaixo a entrevista publicada este sábado no Prosa & Verso com o português José Saramago sobre seu novo livro, "A viagem do elefante" (Companhia das Letras). Por e-mail, o escritor respondeu perguntas do GLOBO e de dois leitores do jornal.
Como ocorre em outros livros seus, o narrador de “A viagem do elefante” incorpora diversos pensamentos e vozes dos quais muitas vezes se distancia em seguida, pela via da ironia ou da contraposição. Desse deslizamento discursivo do narrador podemos inferir um ceticismo perene do autor?
JOSÉ SARAMAGO: Sou realmente um céptico que precisa sempre de ver o que se oculta por trás da aparência das coisas. Das coisas, das palavras e de quem as diz. É um cepticismo em geral bem humorado, mas nem por isso menos implacável.Vivemos numa permanente comédia de enganos que é preciso desmontar continuamente.
Por que o senhor se interessou pela história da viagem desse elefante de Lisboa a Viena, e como conjugou em sua narrativa criação e pesquisa histórica?
SARAMAGO: A pesquisa histórica foi muito limitada. Os dados referentes ao elefante propriamente dito são pouquíssimos, o que me permite dizer que 95% do que relato é pura invenção. Se me tivesse reduzido ao que é comprovadamente histórico, três parágrafos teriam bastado. Para alguma coisa serve a imaginação.
Numa nota prévia à narrativa, o senhor menciona o papel dos “ignotos fados” no surgimento desse livro, e a própria história contada tem muito de improvável. O senhor diria que um sentimento de perplexidade diante da vida está entre suas motivações de escritor?
SARAMAGO: Por outras palavras: olhar as coisas como se fosse a primeira vez. A perplexidade pode ser paralisadora, precisamente o contrário do que procuro traduzir: o movimento do mundo, a mudança constante, o caos, de alguma maneira.
Alguns críticos têm observado uma tendência ensaística em seus livros recentes. O senhor de fato pretende que suas histórias transmitam algo de suas idéias ao leitor? E já imaginou alguma vez passar da ficção ao ensaio?
SARAMAGO: Não prevejo essa passagem. Sinto-me bem como romancista. A presença constante do ensaio na minha ficção é administrada com rigor, pelo menos assim o creio, para que não ocorram invasões arbitrárias no território por excelência da reflexão que é o ensaio. Mas essa prudência nunca me impediu de aproveitar o domínio da ficção para exprimir o que penso. Além disso, em minha opinião, o romance deixou de ser um género para se transformar num espaço literário aonde tudo pode e deve confluir. Até a filosofia.
Apesar da extensão da história, o senhor preferiu chamar a este livro “conto”, em vez de “romance”. Vários escritores já discutiram as diferenças entre os dois. Poderia explicar como as entende?
SARAMAGO: Chamei-lhe conto por faltarem à história praticamente todos os ingredientes que caracterizam o romance, mas nunca tive a esperança de que a designação fosse adoptada. No fundo, é bastante indiferente, não demos mais voltas ao assunto.
Durante o tempo em que escrevia “A viagem do elefante”, o senhor esteve gravemente doente. Este abatimento não se percebe no livro, porém. Foi necessário algum esforço para manter o humor de sua escrita? O senhor pensava às vezes que não conseguiria terminar o livro?
SARAMAGO: Pensar que poderia não terminar o livro, pensei. Quanto ao humor, não tive de fazer qualquer esforço para o manter na escrita. Embora seja incapaz de fazer rir as pessoas com uma piada (primeiro embalsamo a piada e depois conto-a com o mais triste dos resultados), sou consciente de que a página do livro é o lugar onde posso soltar-me sem qualquer limitação.
O senhor criou recentemente um blog. Quais são seus planos para ele? É leitor assíduo de alguma página da internet?
SARAMAGO: Não tenho planos a médio ou a longo prazo. Veremos quanto tempo durará. A minha relação com internet limita-se à página da Fundação que criámos. Não tenho tempo para mais.
A imagem do seu emocionado cumprimento a Fernando Meirelles após a exibição da adaptação de “Ensaio sobre a cegueira” foi vista por milhões de pessoas na internet. O que o comoveu tanto no filme? O senhor ainda gostaria de ver outros livros seus adaptados?
SARAMAGO: Comoveu-me, em primeiro lugar, o respeito demonstrado por Fernando Meirelles na adaptação do livro, e depois a força de imagens que dão um sentido novo ou um sentido ampliado a situações descritas com palavras. E, finalmente, a delicadeza com que Fernando tratou um assunto tão espinhoso.
Como é o Saramago leitor? Há obras importantes para o senhor a ponto de dizer que seria um desperdício não tê-las lido? Pergunta enviada pelo leitor Kelner de Aguiar Silva
SARAMAGO: O leitor Saramago é um leitor como qualquer outro. Entusiasma-se, apaixona-se, boceja. Antes, fosse qual fosse o livro, lia-o até ao fim. Agora tenho a coragem de pô-lo de lado se não estiver a gostar. Quanto à outra pergunta, quem seria eu se não tivesse lido Kafka?
Como, geralmente, o senhor se prepara para escrever um livro, como é a sua rotina — se é que existe uma — quando está escrevendo e como é a sua relação com o que escreve? É igual a Clarice Lispector, que depois que terminava de escrever um livro, não mais o relia sabendo que não aprovaria tudo o que escreveu e sempre iria querer fazer alterações? Pergunta enviada pela leitora Clarissa Pains Silva
SARAMAGO: Creio que devem ser poucos os escritores que cultivam a auto-leitura. Nunca voltei a um livro que tivesse escrito para o ler na totalidade. Pode acontecer ter de ler uma passagem em particular, mas nunca mais do que isso.
1/11/2008
-8:00
A Galiléia de Ronaldo Correia de Brito

Depois de três livros de contos - "As noites e os dias", "Faca" e "Livro dos Homens", o escritor Ronaldo Correia de Brito (ao lado, em foto de Hans von Manteuffel) está lançando o seu primeiro romance, "Galiléia". É um livro que passou oito anos sendo produzido, em uma elaboração lenta e ao mesmo tempo dolorosa e que, quando concluído, deixou o autor em "depressão pós-parto". Não é para menos. A obra parida é um mergulho entre dois mundos: o arcaico, famélico e primevo do sertão e o globalizado. Um universo que é percorrido por três primos que retornam à terra, a Fazenda Galiléia - no sertão do Ceará - para a festa de aniversário do patriarca. Mas o encontram moribundo, com as carnes à beira do apodrecimento. Durante a viagem, os personagens vão se revelando aos poucos, e todas as mazelas da família vão se revelando, desde o estupro do menino David dos quais todos são suspeitos - até o avô - aos fantasmas do passado. Permeiam ainda a obra, as mortes, a vida, o silêncio da caatinga, os barulhos da modernidade, as mazelas da sociedade moderna, a prostituição, o homoerotismo, a discriminação, os laços que se agregam e desagregam nas famílias.
Você afirma que está sofrendo uma depressão pós-parto, depois de concluído o livro. Isso se deve à expectativa por parte da reação do mercado e da crítica, ou pela dor de parir um livro como "Galiléia"?
A resposta é a segunda pergunta. Na verdade, fiquei com esse livro desde 12 de janeiro de 2000. Naquela data minha mulher, Avelina, colocou em minhas mãos uma reportagem que é um dos temas, um dos motes do livro. E nesse dia decidi que ia escrever um romance. Até então, só tinha publicado um livro de contos, em 1987 – “As noites e os dias” – e achava que eles não tinham muito prestígio. Achava que eu tinha que escrever um romance. Ao longo de oito anos, fiquei com esses personagens, alguns vivos, alguns mortos, muitos mortos, fantasmas mesmo. Esse livro tem um lado extremamente realista, ao tratar de um mundo de hoje, contemporâneo, um Brasil nas suas veias mais finas, nos vasos capilares. Entro em questões bem pequenas, buscando dar uma grandeza trágica a esse cotidiano tão bárbaro, quase brutal, quase miserável. Ao mesmo tempo que tenho personagens tão realistas, tão contemporâneos, esses estão em contato com um mundo mítico, profundamente arcaico, um mundo patriarcal, de um patriarcalismo tão bárbaro, quanto o árabe judaico antigo, da Bíblia. E um mundo habitado de mortos, de fantasmas. Na construção do romance, de repente tem um personagem que é o mais realista possível, mas ele entra em uma casa, pede para ter acesso a um cômodo dela e nesse cômodo está um fantasma de 300 anos. E ele mantém um dos diálogos mais absurdos, talvez o mais provocante desse livro. Do mesmo jeito, outros fantasmas estão sempre movendo os vivos e estão inventando dramas. E sem qualquer clima de realismo mágico como o de Gabriel García Márquez. Não é isso. É quase como se esses fantasmas tivessem realidade.
Qual a ligação entre a Galiléia bíblica e a sertaneja, que os três primos foram visitar?
Eu não deixo de ter sido um assombrado por esse mundo. Na verdade, tem uma coisa importante no título. Esse seria o "Livro dos Homens", porque à exceção de apenas um capítulo, todos falam de homens. Mas não tinha título para o meu último livro de contos, e achei uma pena usar esse título. Isso porque na Bíblia tem o livro de Jó, o de Davi, de Esaú, são livros batizados com o nome do livro. Só que tirei o nome deste e botei naquele. Mas ao longo da construção do romance, ele foi virando "Galiléia". E quem me deu a sugestão para esse nome foi a mesma pessoa que me deu o mote para ele, minha mulher Avelina. Ela deu o nome sem ter lido o livro. Até hoje minha mulher não teve a coragem de ler o romance. Ela me via tão fantasmagórico andando dentro de casa que ficou com medo de chegar no livro.
Com relação aos mortos, eles sempre permeiam a sua obra e a sua vida. De novo em "Galiléia". Por quê?
Falar de morte para mim é falar de vida. Não no sentido religioso, no sentido de que a morte &eacu

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