Montadoras pedem ajuda ao Senado para evitar colapso
Publicada em 18/11/2008 às 23h58m
O GloboReuters/Brasil Online
WASHINGTON - Os presidentes-executivos das montadoras General Motors, Ford Motors Comp. e Chrysler compareceram, nesta terça-feira, perante a Comissão de Bancos do Senado dos Estados Unidos, para pedir uma ajuda de US$ 25 bilhões para o setor.
Os executivos alertaram os parlamentares que suas fábricas oscilam à beira de um desastre ao pedir a aprovação do pacote de ajuda, apesar da oposição política a um novo plano de resgate multibilionário do governo. A audiência aconteceu no momento em que governos e executivos de todo o mundo decidem se, e como, eles devem comprometer bilhões de dólares pagos pelo contribuinte para dar suporte a montadoras em dificuldades.
O presidente da GM, Rick Wagoner, foi direto ao explicar ao Comitê Bancário do Senado a razão de os executivos estarem ali e disse que é necessário um pacote de resgate às montadoras para salvar a economia dos Estados Unidos de um 'colapso catastrófico'.
- Isso diz respeito a muito mais do que apenas Detroit (centro da indústria automobilística dos EUA)- afirmou Wagoner em seu pronunciamento. -Trata-se de salvar a economia dos EUA de um catastrófico colapso.
Wagoner foi ao Senado acompanhado de Robert Nardelli, presidente da Chrisler LLC; Alan Mulalluy, CEO da Ford Motor; e Ron Gettelfinger, do sindicato nacional dos trabalhadores da indústria automobilística. Todos eles testemunharam na terça-feira.
" Isso diz respeito a muito mais do que apenas Detroit (centro da indústria automobilística dos EUA). Trata-se de salvar a economia dos EUA de um catastrófico colapso "
-Enquanto a indústria automobilística doméstica cometeu erros no passado, os problemas atuais foram exacerbados por uma das piores crises econômicas em quase três décadas - disse Mulally. - Nós estamos esperançosos de que teremos liquidez suficiente com base nas atuais projeções econômicas e ações planejadas para uma melhora financeira, mas nós sabemos que vivemos em uma era econômica tumultuada.
ArgumentosOs executivos das montadoras criaram um cenário de pânico para tentar convencer os senadores a aprovarem o pacote de ajuda e livrar o setor da falência, como mostra reportagem do correspondente do Globo, José Meirelles Passos. O primeiro argumento apresentado por eles no Senado, é que, se a ajuda for negada, os EUA terão, nos próximos três anos, um prejuízo cerca de 22 vezes maior que o valor do empréstimo pretendido, de US$ 25 bilhões: um total de US$ 554,6 bilhões em termos de renda pessoal, mais os impostos que deixariam de ser arrecadados pelo governo. O segundo é afirmar que os efeitos negativos da atual crise financeira seriam multiplicados por dez.
O terceiro argumento é o de que o colapso das montadoras seria "uma ameaça à segurança nacional". Motivo: no caso de novas guerras, os EUA teriam de confiar em montadoras de outros países para produzir veículos militares. As Três Grandes colocaram no site YouTube um vídeo resumindo esses argumentos e sugerindo aos internautas que pressionem o Congresso.
Para reforçar os argumentos, o diretor-executivo da Chrysler, Robert Nardelli, disse perante o Comitê Bancário do Senado que a montadora ficará sem dinheiro se não receber ajuda do governo.
Nardelli disse ainda que a empresa queimou no terceiro trimestre cerca de US$ 3 bilhões em dinheiro. Segundo ele, a empresa encerrou o trimestre com US$ 6,1 bilhões em caixa, depois de gastar aproximadamente US$ 5 bilhões nos primeiros nove meses do ano.
Segundo os executivos, a Chrysler tomaria cerca de US$ 7 bilhões do pacote de US$ 25 bilhões ; a GM, entre US$ 10 e US$ 12 bilhões; e a Ford, de US$ 7 a US$ 8 bilhões.
Cortes de custosWagoner, da GM, acrescentou que a montadora pretende cortar em 35% seus custos estruturais anuais na América do Norte, ou seja, entre US$ 14 bilhões e US$ 15 bilhões até 2011. Em 2009, esse número deverá ficar em cerca de US$ 10 bilhões. Ele afirmou também que a crise começa a afetar vendas de veículos em todo o mundo, e que havia se espalhado agora para o Brasil.
Alan Mulally, da Ford, afirmou que é muito importante que a Corporação Federal de Seguro de Depósitos (FDIC, na sigla em inglês), aprove a liberação de crédito de um banco para a montadora. Segundo ele, a indústria automobilística dos Estados Uniodos cometeu erros no passado. Ele prevê uma 'significativa' pressão no volume de vendas na primeira metade de 2009.
" A proposta que chegará ao Senado amanhã (quarta-feira) não é séria "
Mulally acrescentou que a Ford pretende cortar a produção de mais de 210 mil unidades no quarto trimestre, frente a igual período do ano passado. Mulally disse ainda que, em outubro, as vendas na indústria atingiram o pior patamar em 25 anos.
A audiência ocorreu no momento em que o governo americano decide se vai ajudar e como seria o socorro às montadoras. Na segunda-feira, senadores democratas propuseram que US$ 25 bilhões fossem dados à indústria automobilística. Além de Wagoner e Mulally, o presidente da Chrysler, Robert Nardelli, esteve presente à audiência.
A recepção no Senado, porém, foi um pouco menos cordial do que os bem pagos executivos estão acostumados. O senador Richard Shelby, republicano do Estado do Alabama e membro do comitê, chamou as montadoras de "modelos fracassados" e disse que eles deveriam ter a falência decretada. Ao criticar o socorro, o senador republicano Jim Bunning, do Kentucky, disse:
- A proposta que chegará ao Senado amanhã (quarta-feira) não é séria.
Enquanto esperam a decisão sobre o pacote de ajuda de US$ 25 bilhões que está sendo discutido no Congresso dos Estados Unidos, as montadoras estão se desfazendo de ativos para fazer caixa . Nesta terça-feira, a Ford anunciou que vendeu 20% de sua participação na Mazda. A montadora americana deixará de ter 33,4% na empresa do Japão e ficará com pouco mais de 13%. Na segunda-feira, a General Motors (GM) desfez-se de uma fatia de 3% na japonesa Suzuki por quase US$ 230 milhões.
New York TimesEm meio à discussão sobre a ajuda às montadoras dos EUA, o "New York Times" lembrou outro socorro.
- Uma grande montadora. Centenas de trabalhadores. Um apelo urgente para que o governo passe um cheque em branco. Não se trata de GM ou Ford, mas da britânica Leyland, cujo resgate, nos anos 70 e 80, custou aos contribuintes US$ 16,5 bilhões, em valores corrigidos.
A Leyland foi socorrida sob Margaret Thatcher, defensora do livre mercado. Depois de receber a última injeção de dinheiro do governo britânico, em 1988, a empresa virou MG Rover. Foi então comprada pela BMW e depois revendida, até quebrar, em 2005. Segundo Garel Rhys, diretor de uma consultoria do setor automotivo, o retorno da ajuda foi pífio.
Leia também: No Brasil, preocupação com o setor de usados
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