Árabes no Brasil: um retrato de mascates e fé
Publicada em 17/08/2006 às 15h57m
Fernando Moreira - O Globo OnlineRIO - O conflito entre Israel e o Hezbollah deflagrou um novo êxodo de libaneses, já acostumados com a idéia de partir de sua pátria. Horrorizados com os bombardeios israelenses, muitos deixaram suas casas e foram em busca de paz em lugares distantes. Desde 1880, guerras e perseguições religiosas levaram centenas de milhares de libaneses a desembarcarem em massa no Brasil, onde se tornaram a maior colônia de origem árabe, com cerca de 6 milhões de pessoas, somando imigrantes e descendentes. Ao lado deles, a comunidade árabe-brasileira é reforçada por sírios, palestinos e, em menor número, egípcios, marroquinos, jordanianos, iraquianos e outros grupos. ( Leia mais sobre estes imigrantes ) Ao todo, eles são cerca de 8 milhões.
- Todos os libaneses têm o sangue dos mascates. Isso quer dizer que eles têm a disposição para sempre recomeçar - diz Mohamed Barakat, de 67 anos, libanês que chegou ao Brasil em 1961 na esperança de conquistar uma vida melhor. - É difícil encontrar um libanês que só fale uma língua, o que lhe dá vantagem para falar com o mundo - acrescenta o comerciante.
Barakat, originário de Baloul, foi um dos muitos árabes que, no êxodo após a Segunda Guerra Mundial, fincaram os pés no Brasil. Um grande contigente, principalmente de libaneses, instalou-se em Foz do Iguaçu (PR), atraído por oportunidades comerciais que remontam aos seus ancestrais fenícios. ( Ouça uma declaração de Barakat )
- O início da construção da usina hidrelétrica de Itaipu (1971) fez com que muitos operários chegassem à Foz do Iguaçu e cidades vizinhas. Os árabes viram nisso uma grande oprtunidade comercial. Itaipu durante muitos anos aqueceu a economia local - explica o libanês Zaki Moussa, presidente do Centro Cultural Beneficente Islâmico de Foz do Iguaçu. - Os libaneses começaram a ampliar as lojinhas - emenda.
Para o escritor brasileiro de origem libanesa Milton Hatoum, de 54 anos, a imigração árabe deu certo, entre outros fatores, por causa da miscegenação já disseminada no Brasil do século XIX.
- Quando os imigrantes começaram a chegar já encontraram um país mestiço, uma sociedade miscegenada - relata Hatoum, autor de dois livros que enfocam a temática árabe, "Relato de um certo Oriente" e "Dois irmãos" (Companhias das Letras). - Neles, retrato a influência libanesa, mas os personagens não sentem uma nostalgia, eles são assimilados pela sociedade brasileira - explica o escritor, nascido em Manaus e casado com uma mineira de origem italiana. ( Leia e ouça um trecho de entrevista com Hatoum )
Outro fator que fez com o Brasil fosse escolhido como destino foi a expectativa de professar a religião islâmica sem o temor de represálias. Atualmente, segundo a Federação Islâmica Brasileira, há 50 mesquitas e mais de 80 centros islâmicos espalhados pelo país. Entretanto, por causa do grande número de libaneses, que tiveram forte influência ocidental, a população árabe radicada no território brasileiro se divide quase igualmente entre cristãos e muçulmanos. De acordo com o Censo de 2000, os muçulmanos são 27.239 no Brasil, mas a Federação Islâmica Brasileira fala em torno de 1,5 milhão de fiéis do Islã.
- Antes da queda do Império Otomano, muitos cristão se sentiam perseguidos e resolveram deixar o Líbano. Com a chegada francesa à região, a situação se inverteu: os muçulmanos é que passaram a deixar o país - comenta Moussa.
Uma das mesquitas mais suntuosas do Brasil se situa exatamente em Foz do Iguaçu. Próxima do marco da Tríplice Fronteira, ela ficou pronta em 1986. A maior parte dos templos islâmicos está localizada no estado de São Paulo, onde se concentra a maior comunidade árabe do país e onde foi erguida a primeira mesquita da América Latina, cujas obras começaram em 1929.
Mas há também mesquitas em recônditos como a pequena Loanda, no noroeste do Paraná, que tem uma população de cerca de 20 mil pessoas. A construção foi bancada pelo comerciante libanês Abdo Fahad, que, como muitos outros muçulmanos, chegou ao Brasil em 1950.
O templo fica aberto diariamente e também funciona como um centro de estudos do Alcorão. Mas raramente abriga mais de dez fiéis para as orações diárias. Nem mesmo familiares de Fahad a freqüentam com assiduidade. Às vezes, recebe a visita de estrangeiros que peregrinam por mesquitas da América do Sul.
- Nossos filhos e netos se casaram com cristãos. Os costumes mudaram, não fazem nem jejum no Ramadã. Muitos até saíram de Loanda - diz a libanesa Mahida Fahad, mulher de Abdo. - Mas muitos brasileiros gostam de ir lá porque acham a mesquita bonita e gostam das nossas orações - completa. ( Ouça o depoimento de Mahiba Fahad )
Entretanto, em um país majoritariamente cristão e de dimensões continentais, nem todos os muçulmanos têm uma mesquita próxima de onde moram. Alguns, conta Moussa, reúnem-se em salas comerciais alugadas especialmente para as orações:
- O local precisa estar limpo e ter um xeque ou um sábio para dar o sermão e passar corretamente a mensagem do Corão.
Comunidade síria também se destaca
Ao lado dos libaneses, os sírios e seus descendentes formam o segundo grupo árabe mais numeroso no Brasil. Exatamente como os vizinhos no Oriente Médio, espalharam-se a partir do fim do século XIX pelos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, pelo Sul e, em menor escala, por outras regiões do país.
- A economia estava muito ruim naquela época para os sírios. Então eles trataram de buscar melhores oportunidades. Em qualquer navio que estivesse dando sopa no porto eles entravam. E vieram parar no Brasil. Muitos ficaram em Belém, que era a primeira parada dos navios - conta o engenheiro Rogério Farah, de 61 anos, cuja família emigrou para o país há mais de cem anos vinda das cidades de Qara e Yabroud, ao norte de Damasco. Depois de Belém, os imigrantes se dividiram entre o Rio de Janeiro e o sul de Minas.
Rogério, representante da terceira geração dos Farah no país, é um exemplo dos muitos descedentes que não seguiram a veia comercial dos seus ancestrais e se dedicaram a outras atividades. ( Clique e conheça descendentes de árabes com destaque na política, na literatura e na medicina )
- Os sírios que chegaram aqui tiveram grande preocupação em dar um diploma aos filhos. Além disso, houve uma mistura muito grande com brasileiros. A única coisa que nos mantém presos à raiz síria é a culinária - conta o engenheiro, que se casou com uma descendente de portugueses e italianos, com a qual teve duas filhas. - Minha família árabe mineira é mais mineira que árabe - observa.
Mas para Rogério a sede de conhecer suas origens árabes falou mais alto. O "genealogista amador" começou a estudar árabe em 1997 e a destrinchar os volumes do Arquivo Nacional que registram a chegada de estrangeiros ao Brasil. Este ano a busca fez um bom resultado.
- Em toda a minha família só há eu e um primo com interesse pela nossa genealogia. Entrei em um site da cidade de Qara e enviei, em árabe, uma mensagem por email. Depois de seis meses obtive uma resposta de um primo, oficial reformado do Exército - conta Rogério, que até entrou em uma comunidade de sírios no site de relacionamento Orkut. - Eu e meu primo em Qara trocamos até hoje mensagens por email.
Os planos para conhecer a região dos seus antepassados foram abortados por causa do conflito no Oriente Médio. Mas Rogério ainda sonha pisar o chão que os emigrantes deixaram para trás.
Apesar do cessar-fogo obtido sob intermediação da ONU, o histórico de violência na região é uma das grandes preocupações do libanês Barakat, que sente angústia ao acompanhar o noticiário à distância.
- Quem quiser ser o imperador do mundo não conseguirá sem dominar o Oriente Médio. Isso acontece desde Alexandre magno. O Oriente Médio é o ponto que une três continentes. Então é uma terra que atrai muitas guerras, isso parece que não vai acabar nunca - diz o comerciante, que tem muitos parentes no Vale do Bekaa, uma das regiões mais atingidas pelos bombardeios israelenses.
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