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ELEIÇÕES ARGENTINAS

Eleitores argentinos privilegiam avanços econômicos em detrimento da correção política

Publicada em 27/10/2007 às 00h41m

Ângela Góes, O Globo Online

Cristina é favorita à presidência argentina - Reuters

RIO - Numa prova de que brasileiros e argentinos têm mais em comum do que a paixão pelo futebol, os nossos hermanos também devem privilegiar os avanços econômicos em detrimento da correção política na hora de escolher nas urnas seu próximo presidente. Assim como aconteceu por aqui em 2006, quando Lula se reelegeu apesar das suspeitas de corrupção envolvendo figurões do governo, Néstor Kirchner caminha a passos largos para eleger a primeira-dama Cristina sua sucessora, em meio a escândalos relacionados a (ex) membros do seu gabinete.

O favoritismo da primeira-dama é inegável. Oito das nove pesquisas de opinião divulgadas pela imprensa argentina na sexta-feira, antevéspera das eleições presidenciais, mostram Cristina Kirchner em primeiro lugar na disputa, com mais de 45% dos votos, o suficiente para elegê-la no primeiro turno.

" Os eleitores preferem ignorar as acusações de corrupção envolvendo membros do governo e retribuir nas urnas pelos avanços econômicos conquistados "

- Nos dois casos, os eleitores, ao que parece, preferiram ignorar as acusações de corrupção envolvendo membros do governo e retribuir nas urnas os progressos econômicos conquistados - analisa Pablo Secchi, coordenador da ONG argentina Poder Ciudadano. - Tanto no Brasil quanto na Argentina, a queda dos índices de desemprego e da inflação prevaleceram sobre os escândalos que antecederam os pleitos.

A "dívida" dos argentinos com Kirchner não é pequena. Os analistas atribuem à sua gestão o crescimento acima de 8% ao ano do Produto Interno Bruto (PIB), além da redução dos altos índices de desemprego e de pobreza que atingiam a Argentina no começo da década.

- A situação econômica do país melhorou substancialmente, em grande parte graças a Kirchner - admite Pablo. - Mas não podemos esquecer que havia toda uma conjuntura econômica global favorecendo a Argentina nos últimos anos [como a alta dos preços internacionais dos produtos agrícolas e uma relativa tranqüilidade e bonança dos mercados financeiros] - esclarece ele.

Cristina durante ato de campanha - Reuters

Apesar dos inegáveis progressos econômicos, no entanto, foram outras cifras que fizeram as manchetes dos jornais argentinos durante o mandato de Kirchner. Como os US$ 60 mil encontrados no banheiro do gabinete da ex-ministra da Economia, Felisa Miceli, e os US$ 800 mil não declarados que o empresário venezuelano Guido Antonini Wilson, que viajava num jato fretado pela estatal de energia argentina, levava dentro de sua maleta.

Ao todo, desde que Néstor Kirchner chegou ao poder, há quase quatro anos e meio, 101 funcionários e ex-funcionários do governo foram indiciados e processados, a maioria por corrupção. Entre os investigados estão os ministros do Planejamento, Julio De Vido, do Desenvolvimento Social, Alicia Kirchner, irmã do presidente, da Saúde, Ginés Garcia, e da Defesa, Nilda Garré.

Segundo o último relatório da organização Transparência Internacional, a corrupção no país está "desenfreada". A Argentina ocupa, atualmente, a posição 105 de um ranking com 180 países onde a corrupção atinge altos níveis.

- Esse número significa que fomos reprovados - diz Pablo.

" É inegável que em outros países se pagaria mais caro por casos de corrupção como esses "

A série de escândalos, no entanto, não dá sinais de abalar a popularidade do presidente - ou de Cristina, que lidera todas as pesquisas de intenção de voto.

- É inegável que em outros países se pagaria mais caro por casos de corrupção como esses. Mas isso não significa que os escândalos tenham sido subestimados pelos argentinos - avalia o coordenador da ONG Poder Ciudadano. - Está claro que a economia está prevalecendo nessas eleições. A população vê em Cristina a possibilidade de dar continuidade ao impulso que governo deu à economia.

Apesar de acreditar que a transparência do processo eleitoral argentino estará garantida no domingo, Pablo não esconde a decepção com uma série de irregularidades colocadas em prática durante a campanha presidencial a fim de favorecer a candidata do governo.

" O aparato estatal foi exaustivamente usado a fim de favorecer a candidatura de Cristina Kirchner "

- O aparato estatal foi exaustivamente usado a fim de favorecer a candidatura de Cristina Kirchner. O canal 7 (oficial) transmitiu todos os atos de campanha da candidata. Além disso, todas as viagem de Cristina ao exterior foram feitas com recursos públicos.

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