Brasil 2008: Doze milhões de vítimas da depressão
Publicada em 17/11/2008 às 18h22m
Artigo do leitor Sagrado Lamir DavidInicialmente, não confundam a depressão econômica e financeira trazida pela crise mundial com o título acima. A crise econômica, que deverá varrer o mundo, pois não existem magos nas finanças, deverá também trazer depressão econômica e financeira aos quase 200 milhões de brasileiros, ainda que Lula, passeando de aerolula, fagueiro, diga, risonho, o contrário. Afinal, com o sempre, ele 'não sabia'.
Refiro-me, nesse título, apenas às pessoas afetadas pela depressão psicoemocional que as leva a procurar recursos médicos.
Recentes notícias mostram que existem no Brasil 12 milhões de pessoas deprimidas. Deprimidas pelas mais variadas causas, mas, para mim, muito mais vítimas de uma sociedade de consumo que consome mais os seus consumidores do que, de fato, é consumida, em suas ofertas de alegrias, felicidades, prazeres, saúde e vida longa, às custas muitas vezes desse maravilhosos fármacos antidepressivos, que viciam mais do que beneficiam, visto que o efeito rebote, quando passa o efeito terapêutico, traz depressão maior - e dependência química - pior do que o mal inicial.
Daí termos escrito, de modo filósofico - apesar de sermos médico e farmacologista - esse artigo, para analisar as profundezas humanas e existenciais desse mal que tanto afeta a humanidade nos dias atuais: a maldita depressão. Comecemos no passado:
"Já tracei a linha que pretendo seguir. Vou começar minha carreira e nada me impedirá de continuá-la", disse categórico o filósofo Immanuel Kant.
Pesou tanto os prós e os contras da vida que não viveu: celibatário, hipocondríaco, frágil, a ponto de escrever um ensaio, aos 70 anos, "Sobre o Poder do Espírito para Dominar a Doença com a Força de Vontade", ao invés de cogitar de escrever "Sobre a Arte de Viver Intensamente sem Medo da Morte"; título que provavelmente jamais encimaria qualquer obra sua: tanto é, que, entediado de fazer a "Crítica da Razão Pura", já no fim da vida, fez sua própria crítica, escrevendo a "Crítica da Razão Prática".
Mas, aí, já era tarde para viver, para quem vivera pensando. Marcel Proust, o maior romancista francês, na opinião de muitos, deve estar até hoje "À Procura do Tempo Perdido". Asmático ao mais alto grau, neurótico, portador de anormalidades sexuais, fez um pacto com o passado, por falta de coragem de enfrentar o presente, portanto, estrategicamente, se comprometendo com o futuro, pela fama, pela inteligência, contudo, jamais, pela ação, pela coragem, pela ousadia existencial: recluso, prendeu-se em casa, num quarto forrado de cortiça, fugindo ao barulho e aos golpes de ar: "viveu" para a posteridade.
Serviria, melancolicamente, para patrono do Clube dos Hipocondríacos, cuja obra literária representativa, numa póstuma homenagem, deveria ser o seu maravilhoso romance "À Procura do Tempo Perdido", que faria também uma apologia aos modernos "vivedores virtuais", criados pela perigosa internetização da vida moderna, escravizada aos tiranos cibernéticos, isto é, os computadores.
Mas não é apenas no passado que mora a hipocondria, pois, entre dinâmicos executivos dos tempos mais recentes, ela teve um representante adaptado às perspectivas da ciência moderna:
Howard Hughes, brilhante e importante cineasta, empresário da aviação, possuidor de enorme fortuna, mas que sucumbiu à depressão e à hipocondria, criando em seus locais de trabalho e de moradia, cuidados superneuróticos, quanto à higiene, à profilaxia de doenças, a ponto de, nos últimos tempos de vida, internar-se numa bolha asséptica, único lugar onde se protegia dos medos, inseguranças, carências e fantasias de neuroses trágicas e consuntivas do prazer de viver, convivendo com vírus e bactérias horripilantes e mortais, tudo produto de uma mente doentia, triste e que não vislumbrava, na simplicidade do ato de viver, a alegria da própria vida, que só é vida para quem não tem medo de morrer!
Uma Sugestão para os escritores hipocondríacos: Se existe uma Lei Anti-Trust, para impedir a cartelização do mercado, por que não criarmos uma Lei Anti-Proust, não para combater o valor inestimável do grande romancista francês?: inestimável como magnífico escritor e como introdutor da dimensão psicológica do inconsciente na técnica novelesca, influenciando, por isso mesmo, até hoje, os horizontes do romance.
Então, por que a Lei Anti-Proust? Apenas para que o imitem na técnica e no gênio literário, mas, jamais, percam, como ele o fez, seu precioso tempo à "procura de um tempo perdido", pois a vida não anda para trás.
Este texto foi escrito por um leitor do Globo. Quer participar também e enviaro seu?Clique aquiSagrado Lamir David é médico e escritor
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