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Segurança

Rio: A cidade do terror e dos 'policiólogos'

Publicada em 17/11/2008 às 14h02m

Artigo do leitor Milton Corrêa da Costa
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A cidade do Rio de Janeiro está ocupada, em boa parte por grupos de narcoterroristas e de milicianos, onde milhões de seus habitantes vivem sob a égide da opressão e/ou do temor ao crime. Na constatação da violência extrema e desafiadora, onde se ressalta, por dever de justiça, alguns resultados positivos da ação policial pró-ativa, basta observar os acontecimentos mais recentes, dignos mesmo de fazer inveja aos áureos tempos de Cali e Médelin.

Recentemente na Praça Bandeira, no Centro do Rio, numa ação de desafio ao estado, bandidos utilizando uma caminhonete ("bonde do terror") dispararam, durante a madrugada, vários tiros de fuzil contra uma cabine da Polícia Militar. A cabine ficou parcialmente destruída e o policial militar ali de serviço escapou ileso por um milagre.

Na manhã do mesmo dia, numa incursão no Morro do São Carlos, próximo ao centro da cidade,agentes de duas forças especializdas da Polícia Civil lograram apreender,atrás de uma parede falsa de uma casa, 91 quilos de cocaína pura. A maior aprensão da droga nos últimos dois anos em todo o estado. Na mesma incursão foram encontrados 10 mil munições de fuzil AK-47 e de pistola.

Dois dias antes, numa operação, também de agentes da Polícia Civil, no Morro do Cantagalo , na Zona Sul do Rio, foram encontradas armas de guerra no escritório de obras do PAC, no interior das dependências de uma igreja. Entre as armas foi achada uma metralhadora anti-aérea .30 do Exército Boliviano. Duante a intervenção policial no local três traficantes, homiziados no interior do prédio, foram mortos resistindo agressivamente à ordem de prisão.

Também na ação de polícia pró-ativa, a que não espera o crime acontecer para reagir- polícia reativa acabou no mundo - uma força especial da Polícia Militar, o BOPE, considerada uma das mais conceituadas tropas de combate urbano no mundo, logrou apreender meia tonelada de maconha e alguns fuzis (não de brinquedo), desses que nos matam com tiro na cabeça nos sinais de trânsito ou em razão de bala perdida ou ainda numa ação de guerrilha no melhor estilo Chicago anos 30, tipo a que aniquilou recentemente, de modo covarde, com a vida de um diretor de presídio, oficial superior da PM, cujo veiculo que conduzia, numa via expresa de grande movimento, em plena luz do dia( desafio e ousadia extrema), foi atingido por cerca de 50 tiros.

Para fechar o relato de guerra, na madrugada de sábado 15 de novembro, data em que em tempos idos nos preparávamos para as comemorações da Proclamação da República- parece que o civismo também é coisa do passado - num tiroteio no Morro dos Macacos, no Bairro de Vila Isabel - o célebre Noel Rosa não merecia esse desprazer - seis pessoas morreram, entre elas uma senhora de 72 anos, vítima de tiro de fuzil na cabeça. Infelizmente em toda guerra, convencional ou não, a população civil sofre os seus efeitos. Durante a invasão de uma facção criminosa rival (aconteceu durante um baile funk), pertencente ao Morro São João, no Engenho Novo, mais seis pessoas resultaram feridas. O noticiário de guerra informa que a troca de tiros, com seguidas explosões de granadas, começou no fim da madrugada, durou duas horas e foi até de manhã quando os "bandidos sociais", narcoterroristas de carteirinha, em fuga alucinada e cinematográfica, entraram em conflito bélico com policiais pelas ruas próximas ao Estádio do Maracanã. Alguns moradores da localidade disseram à reportagem televisiva que jamais tinham presenciado tal cena, muito própria de morros e favelas, onde moradores continuam a ser oprimidos pelo tráfico ou por grupos para militares de milicianos.

Por falar em milícias, que atuam em 171 comunidades do estado, a Comissão Parlamentar de Inquérito, da Assembléia Legislativa, em seu relatório, ainda a ser votado em plenário da Alerj, indiciou 226 pessoas, incluindo um deputado, vereadores, policias militares, civis, bombeiros, agentes penitenciários, militares das Forças Armadas e dezenas de civis, como envolvidos com tais grupos.

É bom lembrar que o fenômeno da violência, que preocupa a própria ordem institucional no país e a paz social, se espalha também por São Paulo, onde recentemente, além do retorno dos grandes assaltos a bancos, narcoterroristas invadiram uma delegacia especializada em entorpecentes,em Botucatu, a 240 km da capital, roubaram o que podia, destruíram tudo o que encontraram pela frente, inclusive inquéritos e boletins de ocorrência e explodiram o prédio numa cena típica de ação da Al-Qaeda. Imagina se a ação terrorista vira moda?

No caso do Rio de Janeiro, no contexto de permanente guerra urbana, alguns "políciólogos" de plantão continuam a criticar a firme e realista posição do governador Sérgio Cabral na sua política de enfrentamento ao banditismo sonhando que tamanho cenário violento pode ser vencido pelas forças legais sem dar um só tiro, cabendo então indagar. Qual seria a solução para a guerra do Rio? Aplicar modelos importados de polícia? Liberar o uso de drogas? Implantar teses antropólogicas e sociológicas, irreais para conter a criminalidade atípica do Rio? Reformar o aparelho policial? Alíás como é possível conceber uma nova polícia, em meio de uma guerra, onde um policial militar percebe salários de R$ 1.000,00 e onde o tesouro do estado não comporta pagar um salário mais digno?

A solução para a guerra do Rio seria não mais incursionar nos redutos do tráfico? Adotar, como antiga proposição de uma ONG, bem conhecida do Rio, o modelo de convivência do governo colombiano com as FARCs, analogamente ao caso do Rio, com cada um em seu domínio, com áreas de exclusão à ação policial, tipo "finge que não trafica que eu finjo que não estou vendo". Aí a polícia só prenderia, "inteligentemente", algum bandido social, armado de fuzil de guerra,se este estivesse dormindo no alto do morro e não oferecesse resistência, entregando seu arsenal pacificamente.

Acho melhor cair na real e observar que estamos vivenciando uma das mais violentas e sangrentas guerra urbanas que já se teve notícia na história do mundo.Certamente que não será com passeatas e irrealismo que se vai encarar tal questão.Qual é a solução dos 'policiólogos'? Permanecer sonhando, no ar condicionado, com a "Polícia de Shangri-lá"?

Para o caso do Rio só há momentaneamente uma estratégia policial capaz de frear o avanço do narcoterrorismo. Como não há efetivo suficiente da poícia ostensiva - a PM precisaria do dobro do efetivo atual para ocupar as 700 favelas aqui existentes - só resta, enquanto é tempo, fazer uso da ação pró-ativa, a que se antecipa ao crime, na busca e vasculhamento permanente aos redutos do tráfico. Espera-se também que a Polícia Federal, em sua missão constitucional, faça a sua parte, não somente em ações espetaculosas (sociedade do espetáculo), mas também no controle da entrada de armas e drogas no País. Por enquanto, o Rio continuanará sendo a cidade do terror.

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Milton Corrêa da Costa é tenente-coronel da reserva da PM do Rio

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