Lula e Obama: uma comparação possível?
Publicada em 18/11/2008 às 15h46m
Artigo do leitor Carlos Maurício ArdissoneA eleição de Barack Obama para a Presidência dos Estados Unidos conseguiu mobilizar justificadamente não só a opinião pública norte-americana, mas a opinião pública internacional. Em todo o mundo, Chefes de Estado, veículos de comunicação, intelectuais e uma ampla gama de pessoas em todos os recantos do globo demonstraram interesse e satisfação pelo resultado do pleito presidencial que levou ao poder o primeiro presidente afro-americano.
Não poderia ser diferente. De fato, a eleição de Obama representa, para muitos, uma esperança renovada de maior democratização e humanização das relações internacionais. Espera-se que o malfadado legado da administração George W. Bush no campo da política internacional - caracterizado pelo unilateralismo nos organismos internacionais, pelo belicismo das guerras preventivas no Oriente Médio e pela ignorância do direito internacional - seja definitivamente sepultado em prol de uma inserção mais democrática, multilateral e cosmopolita dos Estados Unidos na diplomacia global.
A expectativa é a de que ainda que não venha a se concretizar uma inflexão significativamente benigna na atuação internacional norte-americana, dificilmente o novo governo conseguirá bisar o desastroso papel desempenhado por seu antecessor.
Além disso, a ascensão ao poder de Obama coroa simbolicamente a história de luta pelo reconhecimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Foi emocionante assistir em meio à multidão que testemunhou o discurso da vitória de Obama em Chicago, as lágrimas do pastor Jesse Jackson, figura proeminente, ao lado de Martin Luther King Jr, da luta dos negros norte-americanos contra o preconceito racial, institucionalizado e legalizado até a década de 60 em algumas regiões dos Estados Unidos, especialmente nos estados do sul.
Em meio a esse cenário de esperança, chamou atenção aqui no Brasil declaração do Ministro da Fazenda Guido Mantega de que a trajetória de vida de Obama se assemelharia bastante à de nosso Presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, pelo fato de ambos provirem de segmentos sociais historicamente excluídos e também em função de que, a despeito das dificuldades enfrentadas, os dois conseguiram superá-las com suas vontades e méritos pessoais.
A partir desta declaração, cabe o questionamento: será esta comparação pertinente? Procede a afirmação de que suas trajetórias são semelhantes?
A princípio, pode parecer que sim. Ambos precisaram superar dificuldades expressivas para atingir os postos de principais mandatários de seus países. Não há como negar que cada um dos dois enfrentou obstáculos consideráveis para alcançar a realização na política. Mas no caso do mandatário brasileiro, a superação da pobreza foi seu grande desafio de vida. Já em relação ao recém eleito presidente dos Estados Unidos, foi o preconceito racial que impôs barreiras ao promissor estudante de Harvard, até conseguir se tornar advogado e, posteriormente, político de prestígio. Portanto, enquanto Lula precisou superar barreiras sócio-econômicas, Obama teve que enfrentar obstáculos de natureza étnico-cultural.
Assim, devem ser relativizadas as semelhanças entre Obama e Lula. Obama teve em seu país oportunidades de formação acadêmica e profissional, negadas ao nosso presidente. Cresceu num ambiente social e familiar próspero o suficiente para, a despeito do preconceito racial imanente, conferir-lhe oportunidade de estudar até se formar por uma das universidades mais conceituadas em todo o mundo.
Já Lula, por incrível que pareça, se aproxima mais da figura de um self made man - um daqueles muitos conceitos que importamos dos Estados Unidos - do que o próprio Obama. Precisou aprender "na escola da vida", como faz questão de mencionar por vezes, ainda que tal afirmação às vezes soe como desdenho pela educação e inveja dos doutos. Foi a partir do exercício de sua atividade sindical, partidária e legislativa que alega ter aprendido os caminhos da política, com suas armadilhas, obstáculos e atalhos. Lula não teve opção: a falta de educação formal teve que ser compensada de alguma forma pelo valor da experiência na vida pública.
Conclui-se que, apesar da relativa impropriedade da comparação realizada pelo Ministro da Fazenda, ela também não é de todo improcedente. Tanto Lula quanto Obama podem ser considerados protagonistas históricos de momentos em que seus dois países passam por transformações importantes.
A despeito das inclinações pessoais que possamos ter simpáticas ou não a um ou ao outro, o fato é que somos testemunhas da atuação de dois líderes que conseguiram se afirmar no seio político em virtude das transformações extraordinárias experimentadas no campo social de suas nações nas duas últimas décadas.
No caso do Brasil, a eleição de Lula foi resultado, em parte, da ascensão e maturação política de segmentos expressivos do eleitorado que cresceram na democracia.
Quanto aos Estados Unidos, a mentalidade social e cultural de maior respeito à diversidade ajudou a eleger Obama. Ela foi estimulada pelo crescimento do poder de mobilização de imigrantes hispânicos, asiáticos e árabes e de minorias étnicas, sociais e culturais, além dos afro-americanos, que conseguiram se inserir melhor no contexto social, ancorados em ações afirmativas como a controversa política de cotas. Isto, claro, não sem lutas e percalços e sem deixar de apavorar os conservadores, como Samuel Huntington que chegou a atentar para uma suposta influência perniciosa da cultura hispânica sobre o american way of life.
Como resultado desta comparação, o único que resta a qualquer um de nós, americano, brasileiro, ou de qualquer outra nacionalidade, é desejar que tanto Lula quanto Obama consigam satisfazer, pelo menos em parte, as amplas expectativas que geraram. O futuro dirá o lugar que cada um ocupará na história.
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