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|   Rio, 7 de janeiro de 2009
Enviado por Mauro Ventura -
6.1.2009
| 15h59m

Mulata Meiri

Mestre Ancelmo nos convoca a votar na mulata do Gois. Um chamado para lá de agradável, diga-se de passagem. Há que se definir critérios, para escolher entre as 12 concorrentes.

O primeiro é o silicone. Se tiver, está fora. Se quiser ter, igualmente. Com isso, saiu a da Unidos da Tijuca. E também a da Império Serrano, que respondeu "adoraria", e a da minha Portela - que seria a candidata natural -, que disse "ainda não".

Outro critério é a tentativa de branqueamento. Ora, se é eleição de mulata, tudo que não queremos é uma falsa loura. Só que as duas que se enquadram nessa categoria já rodaram - Império Serrano (lente de contato azul) e Portela (cabelo pintado).

Restam dois critérios básicos: beleza e samba no pé. O filtro se afunila e sobram três: a da Viradouro, a da Imperatriz e a da Mocidade. Um informante me diz: a da Viradouro está longe de ser considerada uma sambista de verdade. "Está mais para Carlinhos de Jesus", alfineta. A melhor passista, garante, é a da Mocidade.

E assim meu voto vai para Meiri Lannes. Que ainda por cima é Flamengo.

 


Enviado por Mauro Ventura -
5.1.2009
| 16h08m

Estacionamento cicloviário

Uma cooperativa de táxi envia e-mail oferecendo seus serviços. Ela tem também um site, http://midiapontocom.com.br/midiapc/taxi/hotsite/hotsite.htm, onde detalha melhor seus negócios.

Até aí, tudo bem. O problema é a foto que ilustra a propaganda. Ela foi tirada na ciclovia, na divisa entre Botafogo e Flamengo. Para eles, não há qualquer problema em estacionar um carro em cima de onde os ciclistas pedalam, tirar uma fotografia e usá-la como chamariz.

Um leitor escreve: "Eu pedalo ali todos os dias, então só quero dizer que irei fazer tudo na minha vida, menos pegar um táxi dessa empresa, pelo menor preço que seja. Se eles já fazem isso na propaganda, o que o consumidor deve pensar que eles fazem no dia-a-dia?".


Enviado por Mauro Ventura -
2.1.2009
| 21h44m

Filharada

No avião para Belém, folheio o jornal de Goiás. A reportagem fala da troca de bebês num hospital em Goiânia. Os pais da menina de 19 dias não acreditam na denúncia de que seja a filha deles justamente a que foi trocada.

O pai tem 20 anos, e a mãe, 26. A matéria conta ainda um pouco mais da vida dos dois, que vêm de origem humilde.

Mais que a história em si, me impressiona as idades dos pais. A mãe, aos 26 anos, já tem outra filha, de 11 (!), do primeiro casamento. E ele, aos 20, já é pai pela terceira vez: além da recém-nascida tem um garoto de 2 e uma menina de 4, também de um relacionamento anterior.

Desse jeito, com 30 já vão ser avós.


Enviado por Mauro Ventura -
1.1.2009
| 17h50m

Uma trama kafkiana

A mensagem desembarca na minha caixa-postal com um título que berra. Em negrito e letras garrafais, ele anuncia que duas empresas vão trabalhar juntas (troquei os nomes pelas iniciais): "T. fecha parceria com O." Só faltou o ponto de exclamação.

O texto informa que a O. é "especializada em eventos corporativos". Após apregoar as vantagens da empresa, o release diz ainda que ela, "há apenas três anos no mercado corporativo", já conquistou grandes marcas. E que a parceria O./T. vai fazer com que a O. passe a comercializar shows de vários artistas importantes.

Enfim, deu para entender que a O. é uma especialista em assuntos corporativos. Até aí, nada demais.

Precisamente uma hora de 12 minutos depois, a assessora de imprensa envia novo e-mail, com uma correção. Diz:

"Caro (a), cometi uma gafe, faltou um 'o' no coorporativo. Desconsidere a mensagem anterior."

E reproduz o primeiro texto, substituindo o "corporativo" por "coorporativo". Assim, a mensagem diz que a O. é "especializada em eventos coorporativos"  e que está "há apenas três anos no mercado coorporativo".

Fiquei imaginando quanto tempo levaria para chegar o terceiro e-mail, corrigindo a correção. A assessora pediria desculpas pela nova gafe, diria que sobrou um "o" em coorporativo, falaria para se "desconsiderar a mensagem anterior" e reproduziria o primeiro texto, novamente com "corporativo" escrito de maneira correta.

No dia seguinte, chegou a esperada mensagem. No assunto, vinha escrito, como era de se esperar: "ERRATA - URGENTE!!!".

Até que enfim, pensei. Alguém finalmente avisou a ela que corporativo não é com "oo". Mas vocês acham que o e-mail tinha algo a ver com isso? Nadinha. Eis o texto:

"Caro (a), houve um conflito de informações sobre a parceria da T. com a O. Peço desculpas pelo mal entendido. (...) A parceria ainda não foi fechada e portanto a O. ainda não tem autorização para a venda de shows. Caso tenha publicado em seu veículo a nota da parceria, peço a gentileza que essa errata seja inserida em seu editorial."

A O. pode até ser especializada em eventos corporativos (ou coorporativos). Já em assuntos jornalísticos...


Enviado por Mauro Ventura -
29.12.2008
| 13h02m

Enfeite

Todo embrulho é uma promessa de felicidade ou de decepção. Tem quem abra a caixa com cuidado, tirando delicadamente a fita durex, desembrulhando sem rasgar o papel e preservando quase tudo intacto.

Outros, como eu, avançam e rasgam sem dó papel e pacote.

O presente de aniversário agradou: uma bela bermuda da Wollner.

Na hora de experimentar, o susto: colada à roupa, veio uma daquelas etiquetas magnéticas que fazem o alarme disparar quando você sai sem pagar ou quando um funcionário desatento se esquece de tirar, causando um baita constrangimento.

De volta à loja para pedir a retirada do objeto indevido, nova surpresa: o alarme não soou ao entrar com a bermuda. A vendedora foi questionada:

- A bermuda entrou e saiu daqui com a etiqueta eletrônica, e o alarme não apitou.


Ela abaixou a voz, e confessou, constrangida:


- Não conta para ninguém não, mas o alarme está quebrado.


Então, tá.

Este mês passei novamente pela loja e me bateu uma implicância ao ver, na vitrine, a frase "Best wishes", em letras imensas. Mais caipira impossível. 


Resolvei entrar e, enquanto passeava pelo interior, ouvi uma moça perguntar sobre o desconto para pagamento à vista.

- É de 5% - disse o vendedor.

- Ué, mas não era de 15%?

- Era, na primeira quinzena de dezembro. Depois passou a 10% e agora está em 5%.

Saí antes que ele falasse que no mês que vem o pagamento à vista sairia mais caro.


Enviado por Mauro Ventura -
26.12.2008
| 13h01m

Padre

Xexéo ainda não divulgou os vencedores do concurso Mala do Ano, mas eu consagraria um nome: Padre Cardoso, quer dizer Prego Cardoso, ou melhor, Pedro Cardoso. Poderia vir sozinho ou acompanhado de sua frasqueira, Graziella Moretto, mais conhecida como o Pedro Cardoso de saias. Fica aqui meu voto.


Enviado por Mauro Ventura -
24.12.2008
| 15h23m

Tiro ao alvo

Sinto-me como se fosse um daqueles patinhos que servem como alvo nas barraquinhas de parques de diversões. Impotente, paralisado.

Só que, do lado de lá, com as armas apontadas, em vez de pais e crianças alegres estão policiais a serviço do estado. Em comum, a mesma falta de pontaria.

Mas no parque quando os jogadores acertam a mira ganham bichinhos de pelúcia. Na vida real, o resultado são inocentes morrendo como moscas. Anteontem foram os dois jovens no carro, dias antes foram as crianças nas favelas, hoje pode ser qualquer um de nós.

Até quando, governador?


Enviado por Mauro Ventura -
23.12.2008
| 13h20m

Oswalda

Estive esses dias na casa de Paulo José, para uma conversa. Lá pelas tantas, ele abriu o computador e me mostrou algo curioso. O ator coleciona frases engraçadas, que usa depois em seus textos. Citou-me alguns casos:

- O neto de Paulo virou-se para a mãe e disse: "Mamãe, você está maluca da Sílvia."

- No Festival de Curitiba, uma atriz que perdeu o prêmio para outra comentou, cheia de despeito, com uma colega: "Atriz para mim é a Oswalda Montenegro." A mulher misturou Oswaldo Montenegro com Fernanda Montenegro.

- Um espectador foi assistir ao espetáculo de uma das filhas de Paulo e no fim foi ao camarim comentar a peça: "O esforço de vocês é visível, mas o resultado é enfadonho."

- Típica frase de Vicente Matheus, o folclórico presidente do Corinthians: "Deus escreve certo comendo tortas."

- Um homem não queria sair de casa, mas foi convencido pela mulher a assistir à peça "O livro de Jó", com Matheus Nachtergaele. No último ato, depois de ver Matheus nu, todo ensangüentado, pendurado em pau-de-arara, próximo à platéia, ele virou para ela e disse, cheio de ironia: "Satisfeita, Iolanda?".


Enviado por Mauro Ventura -
22.12.2008
| 16h18m

Sushi na cama

G. estava com o marido no Caroline, celebrado bar do Jardim Botânico, quando viu o sushiman sair com um bandeja tampada e atravessar a rua.

Em 15 minutos, ele foi e voltou três vezes. Curiosa com tamanha movimentação de sushis, ela perguntou ao rapaz:

- Vocês estão entregando agora na vizinhança?

O sushiman ficou verde de vergonha, e disse:

- Estamos levando ali.

Aí caiu a ficha para ela: do outro lado da rua fica o Solarium, conhecido bordel de bacanas do Rio.

No bate-papo de amigos sábado à noite, ela conta:

- Pois é isso mesmo. O Caroline agora faz delivery de sushi para o Solarium.

Alguém ouve a frase de G. e completa com a piada machista toda vida:

- Os clientes do Solarium estão comendo carne crua duas vezes...


Enviado por Mauro Ventura -
19.12.2008
| 18h01m

Para quem acha que está velho

O blog anda meio ocioso, mas é que estou em Belém, para o festival de cinema. Na ida do Rio até Brasília, já passava das 17h e ainda não tinha almoçado. Já imaginava ter que me contentar com a barrinha de cereal da Gol quando a aeromoça trouxe uma novidade: um minipacotinho de biscoito salgado com sabor queijo cheddar.

Eram seis pequenos sanduichinhos, cada um do tamanho de uma moeda de um real, no total de 25 gramas. Pensei: "Arrumaram algo tão saudável quanto as barrinhas, e mais saboroso."

Comi em alguns segundos o conteúdo e virei o pacote para ler do que era feito: "Farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico, gordura vegetal, açúcar, leite desnatado em pó, soro de leite em pó, maltodextrina, queijo em pó sabor de cheddar, amido, sal, glicose, fermentos químicos: bicarbonato de sódio, bicarbonato de amônio e fosfato monocálcico, estabilizante lecitina de soja, realçador de sabor: glutamato monossódico, aromatizante, corante artificial amarelo tartrazina. Contém glúten."

Nunca imaginei que algo tão pequeno tivesse tantos ingredientes.

Em Belém, encontro numa mesa do hotel o grande Lucio Mauro, que está em sua cidade natal com o filho, para apresentar a peça "Lucio 80-30". Ele me diz:

- Sou seu fã, admirador, leitor... e puxa-saco.

Continua um grande gozador esse que é um dos maiores comediantes do país.

Em outra mesa, Tizuka Yamasaki me pergunta a idade de Lucio.

- 80 anos - respondo, explicando que a peça celebra justamente a idade dele.

Tizuka comenta a boa cabeça de Lucio, e diz:

- Minha avó morreu mês passado, aos 105 anos. Só depois da morte dela é que a gente passou a pensar que a minha mãe, que tem 85 anos, está ficando velha.

 


Enviado por Mauro Ventura -
16.12.2008
| 13h34m

O que seria do blog sem as legendas?

O bom de ver os seriados dos canais por assinatura é que não falta assunto para o blog. Ontem, em "Samantha who", a amiga de Christina Applegate disse a ela:

- Caçaram sua carta.

Não, nenhum caçador foi ao encalço da correspondência da personagem. Tratava-se apenas de um tradutor paulista e pouco letrado querendo dizer:

- Cassaram sua carteira de motorista.


Enviado por Mauro Ventura -
15.12.2008
| 13h51m

Infância em branco

João, filho de meu colega Leonardo Lichote, completa um ano no próximo dia 21. Antes mesmo de fazer seu primeiro aniversário, ele já aparece em mais de três mil fotos.

Lembrei-me quando, no começo do ano, a meu lado no bar, uma moça tirava fotografias da filha fantasiada. Ela também filmava a menina com o celular.

- É seu primeiro carnaval! - disse para mim, enquanto clicava uma foto atrás da outra. A cena alegrou-me, mas ao mesmo tempo despertou-me inveja.

Tenho umas três ou quatro fotos minhas quando pequeno, em p/b, mas nenhum vídeo. São raríssimos os registros da minha infância. 


Pior é meu pai, que só tem duas fotos dele, assim mesmo adolescente. Ele diz que a mais antiga, em preto e branco, foi tirada quando tinha 16 anos. Há ainda uma dele tocando tuba na banda do Exército, aos 18 anos. Ele mal aparece, em meio a dezenas de outros rapazes. E só.

Dia desses, Moacyr Luz ligou convidando para participar de sua coleção "Álbum de retratos", que já lançou livros como "Dona Ivone Lara por Zélia Duncan", "Zezé Motta por Walter Carvalho", "Bete Mendes por Fátima Guedes" e "Ferreira Gullar por Geraldo Carneiro". A idéia é contar vida e obra de personalidades através de cerca de 60 fotos e textos explicativos.

Ele sugeriu: "Zuenir Ventura por Mauro Ventura". Mas meu pai, avesso a esse tipo de exposição, explicou que não havia nem material para se trabalhar. Pura verdade.

Como são felizes as pessoas que têm a infância preservada em imagens.


Enviado por Mauro Ventura -
12.12.2008
| 18h41m

A Guerra do Rio

A partir de meia-noite de sábado, voluntários vão estar na Praia de Copacabana, em frente à Princesa Isabel, empilhando 16 mil cocos. O ato público promovido pela ONG Rio de Paz se estenderá das 6h às 12h30m e irá protestar contra as mortes no Estado.

Por que 16 mil cocos? Porque, em apenas dois anos, esse foi o número de homicídios no Rio - fora os 9 mil desaparecidos. Somados os dois dados, dá quase a metade do total de soldados americanos mortos durante os 16 anos da Guerra do Vietnã.


Enviado por Mauro Ventura -
11.12.2008
| 20h14m

Questão de tempo

Caros jurados,

Graças a vocês, perdi uma noite de sono. Isso não é nada. Muito pior é o caso de Alessandra Soares e Paulo Roberto Soares, que nunca mais tiveram uma noite de sono decente na vida. E a esperança que tinham de terem um pouco de alento se esvaiu.

Ontem, eles sofreram uma nova morte. Após a perda do filho de três anos, viram morrer a expectativa de ver o homem que o matou pagar por seu ato. Um homem pago por nós para defender a vida de inocentes, não para tirá-la.

Por muito menos, a Grécia parou. Mas aqui a vida continua igual. Ninguém sai às ruas, ninguém pede a demissão do secretário de Segurança, ninguém exige desculpas do governador. A polícia não analisa seus erros e reformula seus padrões. Quase tão dolorosa quanto a absolvição do réu é a indiferença da sociedade.

O PM William de Paula respondia por homicídio duplamente qualificado, e pelas tentativas de homicídio da mãe e do irmão do menino. Por tudo isso, vai prestar um ano de serviços comunitários.

O carro em que Alessandra e seus filhos estavam foi metralhado por 17 tiros. A mãe não reagiu. O secretário de Segurança classificou à época o caso de "operação desastrosa". O delegado-titular da 19ª DP disse que o PM e seu colega atiraram para matar os ocupantes do automóvel. Câmeras filmaram a ação. E mesmo assim nada aconteceu.

A decisão não livrou apenas o cabo PM das grades. Também colaborou para dar um claro sinal de que não há nenhum problema em atirar primeiro e perguntar depois. Breve acontecerá mais uma execução de inocente. E depois outra, e outra, numa sucessão sem fim.

Quando policiais assassinaram 21 inocentes em Vigário Geral, era para a população ter ido às ruas. Não foi. Mais tarde, quando outro grupo de policiais atirou aleatoriamente em moradores da Baixada Fluminense, executando 29 inocentes, sonhava-se que os moradores protestassem contra essas ações terroristas destituídas de motivações religiosas ou ideológicas. Nada aconteceu.

A polícia está fora de controle, e o governo estadual finge não perceber. Vocês, jurados, tiveram a chance de ajudar a dar um basta nisso.

Salve-se quem puder.


Enviado por Mauro Ventura -
10.12.2008
| 14h53m

Pernas bambas

Vou lhes contar: não tenho estrutura para premiações. Aliás, acho que ninguém tem. Ontem foi a noite do prêmio Esso de jornalismo, o mais importante do país.

Concorria com a matéria "Tribunal do tráfico", na categoria regional Sudeste, juntamente com "O Estado de São Paulo" e "O Dia". Achei sinceramente que "O Dia" ia levar. O material que João Antônio Barros e Thiago Prado produziram - um dossiê sobre a milícia que tem ajudado a desmontar esse poder paralelo que aterroriza várias favelas do Rio - é de altíssimo nível. E pensei que o júri poderia dar o prêmio como um desagravo ao jornal, que teve profissionais torturados por milicianos.

Outros fatores contribuíam para o pessimismo. Contaram-me que quem ganha o prêmio Embratel dificilmente leva o Esso. Outro interlocutor me explicou ainda que o GLOBO disputava em várias categorias, com matérias espetaculares, e o júri não ia concentrar os prêmios num só veículo. Além do mais, é melhor pensar no pior, porque se perder já era o esperado.

Fingia que não estava nem aí para o resultado. Dizia a mim mesmo que já era vitorioso, por estar entre os 38 finalistas, de um total de 1.082 trabalhos inscritos. Mas a quem estava enganando?

Passei a cerimônia tenso, tentando não dar bandeira. Que cara fazer em caso de derrota? Tem que ser um misto de indiferença com reconhecimento do valor do vencedor. Ou nada disso. Pode ser um ar de irritação com desdém pelo trabalho premiado, como já vi acontecer. Com certeza vou optar pela primeira opção.


E se ganhar... As possibilidades são pequenas, mas caso aconteça tenho que ter algo preparado para falar. Sou péssimo de improviso, melhor pensar em algumas palavras. 


Até que chega a hora. Após uma longa apresentação dos três trabalhos finalistas, é anunciado o nome. Hein? Como assim? É tudo meio irreal, e você hesita um pouco, indeciso entre se levantar ou esperar mais um pouco. Há o risco de você se encaminhar para o palco e perceber que foi um equívoco, que leram o nome errado, que ainda estão divulgando os finalistas...

Mas ninguém faz cara de "que mico!", e você segue, com as pernas bambas, para receber o prêmio. E só consegue pensar: "Ainda bem que deu para preparar umas palavrinhas de agradecimento..."


Enviado por Mauro Ventura -
9.12.2008
| 16h44m

Curtinhas

1. Dia 8 de janeiro começa o curso "História das religiões" na Casa do Saber. Melhor de tudo é o sobrenome do professor: Karnal.

2. Placa num posto de gasolina na Tijuca: "Lavagem completa. Cem aspiração.” Ao contrário do que os dizeres indicam, a aspiração não custa R$ 100. A lavagem completa sai a R$ 9, sem aspiração.

3. Amigo meu, ligado à segurança pública, me conta duas denúncias que recebeu há tempos:

- em Caxias, uma quadrilha de idosos estava fazendo saidinha de banco (quando os bandidos assaltam quem está deixando a agência bancária).

- e, em Santa Teresa, um deficiente físico, com muletas, estava roubando passantes.

Não falta mais nada.

4. Telefonam para a casa de meus pais. Eles saíram, e a ligação cai na secretária eletrônica. É um daqueles golpes de disque-extorsão. O bandido fica irritado de ninguém responder e grita:

- Atende essa porra aí!

Logo depois entra uma voz simulando choro de adolescente:

- Pai, socorro, me salva!

Não há resposta, e o bandido retorna, ainda mais encolerado:

- Atende, porra!

A suposta vítima volta a chorar, do outro lado da linha continua o silêncio, o marginal berra de novo, até que desliga com raiva. Bem-feito.


Enviado por Mauro Ventura -
8.12.2008
| 15h00m

"Onde estão os nossos mortos?"

De janeiro de 2007 e janeiro de 2008, o Rio contabilizou cerca de 9 mil desaparecidos. O Cesec (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Candido Mendes) estima que 70% deles foram assassinados.

Em geral, eles desaparecem de quatro formas: são jogados em cemitérios clandestinos, devorados por animais famintos como porcos e jacarés, lançados no fundo de lagoas ou incinerados vivos.

Para protestar contra esses números escandalosos, a ONG Rio de Paz, presidida por Antônio Carlos Costa, promove amanhã, véspera do dia da Declaração dos Direitos Humanos, uma manifestação impactante. Ele vai reproduzir de forma dramatizada, na Praia de Copacabana, na altura da Princesa Isabel, dois desses tipos de morte: a incineração e o cemitério clandestino.

A partir das 2h da madrugada de amanhã a ONG começa a montar a manifestação, que vai durar do nascer do sol até 12h30m.

A incineração vai funcionar da seguinte forma. Eles vão levar pilhas de pneus, que serão postos em voluntários e manequins, até formar duas fileiras. Num dos pneus com um manequim será jogada gasolina e ateado fogo, por dois minutos.

- Faremos a dramatização, mas por esse tempo apenas, para não poluir - diz Antônio.

Para protestar contra o cemitério clandestino, será cavada uma vala na areia. Dentro, estarão voluntários, manequins e pedaços de manequins. A ONG está convocando pessoas a participar. O músico Tico Santa Cruz já confirmou presença.

Na frente da vala estará uma placa enorme, com os dizeres: "Desaparecidos. Onde estão os nossos mortos?". Ao fundo, se lerá o artigo 5 da Declaração dos Direitos Humanos, aquele que diz: "Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante."

Copacabana nunca terá visto coisa igual.


Enviado por Mauro Ventura -
8.12.2008
| 13h43m

Lá e cá

A Grécia parou por causa da morte de um adolescente de 15 anos. Ele teria xingado policiais, e foi morto com um tiro. O incidente provocou dois dias de distúrbios. Lojas foram saqueadas, carros incendiados, agências bancárias atacadas. Milhares de manifestantes saíram às ruas, houve passeata com dez mil pessoas e confrontos com a polícia. O governo teve que pedir desculpas.

Certa vez, comecei a colecionar casos de crianças e adolescentes mortos pela polícia no Rio. As circunstâncias, o porquê, as reações da população. Usava como fontes os jornais e amigos ligados à segurança pública, de policiais a acadêmicos. Acabei desistindo. Era um trabalho insano, desgastante e repetitivo.

É uma notícia tão comum na cidade que produz indiferença. Quando se trata de uma criança, a informação ainda causa algum efeito. Os mais sensíveis, optam por não ler. Outros chegam a se indignar. Raros perdem o sono. Alguns estão tão anestesiados que dizem a si mesmos "pena" e seguem em frente.

Logo em seguida vem uma nova morte, e a anterior é esquecida. A tragédia não serve de exemplo, e pouco depois é repetida. Entra governo, sai governo, as desgraças continuam se sucedendo, para desinteresse de muitos e desânimo de poucos.


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