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|   Rio, 6 de janeiro de 2009
Enviado por Marceu Vieira -
31.12.2008
| 2h22m
ano-novo

Só pra dizer

Feliz 2009!


Enviado por Marceu Vieira -
28.12.2008
| 0h30m
cena brasileira

A mesma praça, o mesmo banco

Ainda há pouco vi dois meninos de uns 10, 11 anos disputando a tapas um pedaço de frango largado num monte de lixo na Praça São Salvador, no Flamengo.

A cena não pareceu chocar ninguém em volta, na praça apinhada. A indiferença me chocou muito mais do que a cena.


Enviado por Marceu Vieira -
26.12.2008
| 2h01m
palmas no botequim

Coragem premiada

O Botequim não vive cheio. Mas seu dono fica todo prosa quando percebe que é muito bem freqüentado. Um dos fregueses está aí na foto. É Lúcio de Castro.

Lúcio é o que segura o troféu. À sua esquerda, está Guilherme Rosselini. Os dois são jornalistas do Sportv. Posam, nesta cena, com o merecido 25° Prêmio de Direitos Humanos de Jornalismo que conquistaram por uma reportagem sobre os bastidores das categorias de base do futebol. Foi ao ar no "Sportv Repórter", programa que deveria ser assistido por todo guri fanático por bola - como eu mesmo fui, e os dois, tenho certeza, também foram.

Lúcio é filho do grandioso jornalista Marcos de Castro (grandioso porque grande, para o Marcos, é pouco). Tem ainda no currículo a concepção e a execução de outro excelente programa do Sportv, o "Encontros para a história", dele e de Victorino Chermont, também craque.

A foto está aqui na parede do Botequim em homenagem a Lúcio, a Victorino, a Guilherme e a todos os que militam no jornalismo com a paixão deles. Lúcio, especialmente, é um guerreiro da verdade e da obstinação pela justiça, virtude que só os melhores têm. Palmas para eles.


Enviado por Marceu Vieira -
24.12.2008
| 0h44m
memória

Natal

Eu tinha medo de Papai Noel. Não dizia a ninguém, mas tinha. Me apavorava a figura descabida daquele homem gordo, de barba branca, metido em paletó de cetim vermelho em pleno calorão, rindo para mim o seu “rou, rou, rou” gutural sem que eu pedisse.

À meia-noite do dia 24, eu sempre me dividia entre a curiosidade de flagrá-lo desembarcando do trenó sobre o telhado e o pavor que, na contramão do impulso infantil, me fazia fechar os olhos só de imaginar a cena. Nem a expectativa do presente me aliviava o medo.

Mais de uma vez me enfiei debaixo da cama para esperar aquele momento passar. Nossos natais tinham sempre um Papai Noel. Mesmo quando os presentes modestos não justificavam sua presença. Não importava, ele estava lá.

Aparecia, depositava os embrulhos perto do presépio que meu avô montava todo ano, sacudia a barriga com seu “rou, rou, rou” apavorante e ia embora. Raras vezes suportei acompanhar o ritual até o fim. Preferia ficar longe do alcance de seus olhos.

Foi por sentir medo que, sem querer, num certo Natal, dei de cara com ele - e da pior maneira possível, porque estávamos só nós dois, mais ninguém. Eu tinha 7, talvez 8 anos. Pouco antes da meia-noite me enfiei debaixo da cama da minha mãe. A festa corria na varanda dos meus avós, que moravam no mesmo quintal. No burburinho de tantas crianças, não notaram minha falta.

Permaneci quieto, ali, esperando a meia-noite passar. Até que ouvi passos no quarto. Meu coração disparou, fiquei gelado. Comecei a tremer quando pude ver os pés que se aproximavam. Eram pés calçados em botas. Botas pretas. Eram as botas de Papai Noel!

Acho que, na inocência de menino, senti algo como a aproximação da morte. Papai Noel chegou até a beirada da cama, sentou, suspirou e arrancou as botas. As meias eram pretas. De repente, começou a tirar a roupa. Primeiro as calças, que caíram no chão. Depois o paletó, o gorro, os óculos e, por último, a... barba!

Sem saber que eu estava ali, chutou tudo para debaixo da cama. Tive de me encolher para não ser atingido pelo cetro de madeira, forrado com papel crepom. Para minha surpresa - mais de alívio do que de decepção - a roupa também era de crepom.

Papai Noel não existia. Usava roupa de papel e nem homem era. Papai Noel era Vilma, filha de tia Didi, querida vizinha que tratava todas as crianças daquele quintal como se fossem sobrinhos de verdade.

A descoberta de que Papai Noel não existe, inevitável na vida de todo mundo, é uma das constatações mais tristes da existência humana. Acho que é a primeira grande tristeza na vida da gente. Infelizmente, nenhuma criança é esperta bastante para se dar conta disso. Só percebe que a descrença é triste depois de adquirir discernimento suficiente para se entristecer com muitas outras coisas.

Papai Noel povoa minhas lembranças mais remotas. Entre elas, está a de uma festa de Natal organizada pela associação de funcionários do antigo Banco Nacional, onde meu pai trabalhava. Naquele dia, ele arrancou minha chupeta, a pedido da minha mãe. “Chupeta não é coisa para um menino do seu tamanho”, ainda me lembro do mal-educado dizendo.

Na festa, ganhei um cachorro de borracha, réplica do Bandit do Jonny Quest - quem se lembra do Bandit do Jonny Quest? Ganhei também um medo terrível daquele ladrão de chupeta vestido de vermelho, que cheirava a talco e carregava nas costas um sacolão que eu imaginava abarrotado de Bandits.

Meus natais eram simples, mas muito felizes. Deixavam em mim, e também nas outras crianças da família, acho, a impressão boba de uma fartura que não experimentávamos no resto do ano. Talvez por isso um deles tenha ficado especialmente marcado na minha memória. Foi um bem difícil, em que a sensação de fartura se desintegrou numa frase da minha mãe.

_ Esse ano não vai ter presente.

Não sei que idade tínhamos. Nem se era blefe. O encantamento de uma infância com quintal, onde havia primos para brincar, árvores para subir e um bom espaço para jogar futebol talvez nos consolava daquele terrível anúncio. Eu não sabia disso. Mas consolava, sim.

O cenário daquele e de todos os nossos natais era a varanda da casa dos meus avós. Eram três casas no mesmo quintal. A nossa, a deles e a dos meus primos.

À meia-noite daquele Natal, quando já estávamos conformados com a falta do presente, minha mãe apareceu com os embrulhos. O meu, eu nunca vou esquecer, era um carrinho de corrida. Pequeno. Pouco maior que o meu pé. Era movido a pisadas numa sanfona acoplada à traseira. A pisada comprimia o ar dentro do cano de descarga - e o carrinho disparava por uns dez metros.

Eu já não acreditava em Papai Noel naquele Natal. Se acreditasse, teria me desiludido como o filho que eu viria a ter dali a 15 anos, talvez. Ele ainda não tinha completado 9 quando encontrou no fundo de uma gaveta de casa, largada ali por descuido, uma cartinha repleta de mesuras e delicadezas que havia escrito para Papai Noel. Decepcionado, deixou de acreditar.

A impossibilidade da existência de Papai Noel é uma descoberta marcante. A trajetória de uma vida pode ser dividida de muitas formas. Antes e depois de um casamento. Antes e depois de uma dádiva ou de uma perda. Antes e depois de uma grande vitória ou de um grande fracasso. Divido a minha também entre antes e depois do dia que deixei de acreditar em Papai Noel.

Tenho três filhos. Dois já não acreditam, e eu morro de pena deles por isso. Porque nascemos para perder coisas. E as primeiras, que fazer?, são as crenças da infância. Perder as crenças da infância é o primeiro sinal de que, dali em diante, cresceremos para perder muito mais. Perderemos juventude, cabelos, dentes, amigos, amores, memória, coisas grandes e pequenas, e por fim a própria vida.

Um de meus maiores orgulhos é ter sido o primeiro Papai Noel da vida dos três. Era eu que estava debaixo da fantasia do bom velhinho que cada um deles conheceu, tocou e beijou pela primeira vez. Guardo num baú de relíquias as fotos dos três no meu colo, eu ali todo paramentado no mesmo quintal da minha infância em Morro Agudo.

Aliás, não é o mesmo. Hoje, está mudado. Está, sobretudo, silencioso. Meus avós não estão mais nele. Um primo muito querido, que morreu adolescente, também não. Eu e todas aquelas crianças de antigamente somos adultos e moramos longe. O chão de terra ganhou cimento e perdeu árvores. As crianças de agora só vão lá de visita.

A tradição de Papai Noel sobrevive, mas ele não vai mais lá na noite do dia 24. Aparece, em geral, uma semana antes, distribui lembranças para as crianças da família e da vizinhança e se despede, com seu “rou, rou, rou” de mentira.

Depois, vai trocar de roupa naquele mesmo quarto da infância, onde o homem de hoje, sob seu disfarce, deseja como um presente impossível ser ainda o garoto congelado de medo embaixo da cama.

Texto do dono do Botequim que, quando ele tiver mais tempo e inspiração, estará num livro ainda não concluído chamado "Praça Anacleto Maurício, Alameda Iracema".


Enviado por Marceu Vieira -
18.12.2008
| 13h25m
causa própria

Zoraia

A fotografia de um transformista fantasiado de baiana na Banda de Ipanema, estampada numa primeira página de jornal velho encontrado em casa, me fez lembrar de Zoraia, a única primeira-passista travesti que conheci na vida. Aliás, deve ter sido a única primeira-passista travesti em toda a história do carnaval.

Apesar de sua existência inusitada - porque o título de primeira-passista de uma escola, num tempo em que ainda havia primeiras-passistas, era deferência concedida apenas à mais desejada das cabrochas -, bom, apesar disso, é pouco provável que os estudiosos do samba, desde sua origem na Praça Onze, saibam da existência de Zoraia.

Escrevia-se Zoraia assim mesmo, com “Z” de Zorro, nome de guerra de uma criatura tão diferente para os meus olhos de menino em Morro Agudo que, no início, eu não conseguia adivinhar se ela era homem ou mulher. Era muito alta, devia medir quase 1,90m. Tinha a voz meio grossa, meio fina, peitinhos de limão e olhava para a gente com olhos de lascívia.

Zoraia reinou no carnaval de Morro Agudo na década 70. Era da linhagem de um Madame Satã, por exemplo, o homossexual que dominou a Lapa carioca dos anos 40 e 50. Como Satã, Zoraia era valente e não costumava perder as brigas em que se metia.

Pobre, nascida na Baixada Fluminense, anti-heroína de uma vida distante dos colégios e próxima dos conflitos com a polícia, era a minoria em forma de gente. Seu tipo se enquadrava em todos os guetos. Era negra, favelada e nem mulher era.

Era uma ferrada. Mas, antes de ter sua carreira interrompida pelas dores de uma condenação na Justiça por um crime que eu nunca soube qual foi, defendeu, anos a fio, com orgulho de rainha de bateria, a bandeira de sua escola de samba. Com sua magreza brejeira e talhada em curvas artificiais, saía, deslumbrante, à frente do vistoso pendão verde e branco do querido Grêmio Recreativo Escola de Samba Imperial de Morro Agudo.

Na infância, uma das nossas brincadeiras preferidas era mexer com Zoraia. Num tempo em que o homossexualismo era para nós algo insondável, eu e meus amigos de rua descobrimos, enfim, graças a ela, que a humanidade não era dividida apenas entre homens e mulheres. Havia também os viados, que é como a gente a chamava - “ô viadôôôôôô!” - na farra incorreta da meninada que vivia caçoando dos outros na rua.

Zoraia não deixava barato. Corria atrás da gente e, quando pegava um, não economizava cascudos. Se não conseguia nos alcançar, berrava palavrões e, de longe, mostrava o membro, balançando a peça de tamanho razoável que emprestava a seu aspecto já confuso um ar conflitante de aberração e deformidade. Alguns palavrões que gritava eram desconhecidos, o que nos obrigava a pedir a tradução dos garotos mais velhos.

Lembro que um desses garotos mais velhos, certa vez, gritou para ela:

_ Zoraaaaaaaiiiiaaaaaaa! Tua periquita é na buuuuuuundaaaa!!!*

Engraçado que, naquele dia, ela não se ofendeu. Parou, olhou para a criançada que se acabava de rir na esquina, e, em vez de estrilar, como sempre, devolveu com o nariz empinado e um sorriso orgulhoso:

_ Até que enfim vocês disseram alguma coisa que presta. Dessa eu gostei.

Zoraia era a alegria dos peões de obra, dos degredados do sexo, dos viúvos solitários, dos solteirões tarados, dos aleijados, dos desterrados da sorte, dos loucos de rua e dos desvalidos que se saciavam com seus favores. Com alguns, ia de graça. Com outros, deitava-se em troca de notas miúdas, cigarros, bebida ou prendas ordinárias, como perfumes e bijuterias roubados das penteadeiras de casa. Era a encarnação sem glamour da Geni da ópera de Chico Buarque.

Dizem que também consolava mulheres enfastiadas de seus maridos - e que, neste papel, teria chegado a roubar o coração de muitas senhorinhas carentes de gozo e de afeto.

Lembro que tinha uma irmã linda e cobiçada. Contam que muitos homens iam com Zoraia só para amainar, com fantasias, a obsessão de possuir a verdadeira vênus da família. Ter Zoraia na condição de cunhada era uma possibilidade que o preconceito disseminado impedia, mas era o sonho que povoava o fundo da alma de muitos em Morro Agudo.

Talvez só não tenha sido o meu por uma questão de contemporaneidade. Eu era bem mais novo. Mas ouço dizer de homens que sofreram de se embebedar nos botequins com o coração afogado na tristeza de não desfrutar das virtudes femininas da irmã de Zoraia.

A mãe também não era de se jogar fora. Lembro que, certa vez, adolescente, entrei tarde da noite no Botequim do Dimas, Deus os tenha - o Dimas, que já morreu, e seu botequim, que virou armarinho -, e encontrei meu tio sentado no balcão. Perto dele, dois banquinhos adiante, estavam a irmã e a mãe de Zoraia. A irmã já não era aquela visão de mulata da minha infância, mas ainda atraía todos os olhares masculinos do bar.

Aliás, não atraía todos. Dividia alguns com a mãe, ali uma senhora ainda muito bem apanhada e capaz de mexer com a libido de homens até mais novos.

Um dia, Zoraia foi presa e eu nunca mais soube dela. Sua mãe e sua irmã, com os anos, também sumiram, e, desde então, a figura daquela passista extravagantemente andrógina e improvável, de cabelo carapinha escondido sob lenço colorido ou peruca, passou a ser tema de conversas sobre as brincadeiras de mau gosto que aprontávamos na infância.

Anos atrás, cheguei a pensar em me valer da prerrogativa de jornalista para tentar descobrir seu destino. Mas logo desisti. Como não sabia seu nome verdadeiro, não ia dar muito certo telefonar para a assessoria de imprensa do Departamento do Sistema Penal e perguntar por um interno chamado Zoraia, que nem fama no crime tinha.

Lembro que, na cobertura de uma rebelião no presídio de Água Santa, ali pela segunda metade dos anos 80, cheguei a imaginar que podia encontrá-la. A cena: eu de bloco e caneta na mão, anotando as queixas dos presos, e no meio deles lá estaria a antiga estrela dos desfiles da Imperial, feliz com a troça de um colega de cela, que gritaria para os repórteres:

_ Eeeeiii! Essa aqui é a Zoraia, que tem a periquita na buuundaaa!*

Que nada. Zoraia não estava lá. Há pouco tempo, contei a um amigo querido de Morro Agudo da intenção de escrever sobre ela e pedi que me ajudasse a descobrir seu paradeiro. Ou pelo menos se ainda era viva.

Depois de alguma pesquisa, meu amigo descobriu que a personagem da nossa infância cumprira pena de 12 anos e havia deixado a cadeia em data imprecisa, um tempo atrás. Tornara-se evangélica, passara a freqüentar uma Assembléia de Deus e, antes de morrer, doente de mal desconhecido, envelhecido e mofino, reassumira o nome de batismo - Wilson.

Quem sabe na esperança de alcançar o céu, e com ele a remissão dos pecados de antigamente, e talvez ainda a ressurreição da carne castigada e a vida eterna, amém, Wilson da Silva foi enterrado, como fiquei sabendo, já sem as curvas artificiais que nos intrigavam na infância.

* Texto do dono do Botequim extraído do livro "Jornalistas que valem mais de 50 contos", coletânea publicada em 2006 pela Casa Jorge Editorial (o autor optou aqui por substituir expressões contidas no original).


Enviado por Marceu Vieira -
12.12.2008
| 23h56m
programa de sábado

Bip Bip faz 40 anos

Neste sábado, 13 de dezembro, o Bip Bip, céu da boemia em Copacabana, completa 40 anos.

O bar abre às 18h para o lançamento de um livro em homenagem à data. Foi escrito por 208 mãos. Isso aí, 208 mãos. São 104 relatos de fregueses sobre o botequim do meu querido amigo Alfredinho. Na lista, há gente famosa como Aldir Blanc, Sérgio Cabral, pai, Nelson Sargento e tantos outros.

Aliás...

O Bip Bip nasceu no mesmo dia do AI-5.

Deve ter sido concessão do destino, como um lenitivo, um consolo para o choque causado pelo ato do regime militar que jogou o Brasil nas trevas da ditadura.


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