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Enviado por J.A. Gueiros -
3.1.2009
| 16h58m
A caminho do Polo Sul

Na rota de Fernão Magalhães

 

A viagem transformou-se em expedição e seguiu pela costa da Patagônia Sul até o cabo Horn atingindo os pontos mais extremos do continente. De certo modo acompanhamos as rotas de Fernão Magalhães, de Cook, de Darwin e de tantos heróicos navegadores que desbravaram a Antártica. O descobridor português Fernão Magalhães batizou a Patagônia ao chamar os índios Onas de patagones, porque tinham patas ou pés grandes. Magalhães levou 38 dias para atravessar o canal que hoje tem o seu nome, estreito de Magalhães, e na verdade não é estreito mas deriva seu nome da palavra inglesa straight que quer dizer reto, navegável atualmente em menos de 12 horas. É emocionante o percurso de Punta Arenas a Ushuaia passando pelo canal de Beagle ao largo da Terra do Fogo. As duas cidades querem ser o ponto mais ao sul do continente, ou seja o fim do mundo. Na verdade ganha Punta Arenas que está no próprio continente e foi divulgada no começo do século passado pelo aviador Saint Éxupery pioneiro do correio aéreo nesta região e famoso escritor. Mas Ushuaia fica numa ilha que se coloca bem ao sul do continente, fazendo parte da Terra do Fogo, assim chamada porque os velhos navegantes avistavam fumaças de vulcões em seus horizontes. Na verdade Ushuaia tem muito mais a haver com o fim do mundo. Sua paisagem misteriosa lembra o que vive em nossa imaginação sobre cenários de outros planetas. Pode-se percorrê-la num trenzinho, tipo Disney através de seus bosques e colinas. Nela se pratica o turismo antártico todo voltado para as baleias e os pinguins. O navio seguiu viagem bordejando as ilhas extremas, navegando do Pacífico ao Atlântico pela poderosa corrente circumpolar que em certos momentos atemoriza os passageiros. Fomos atingidos no percurso por ventos de mais de 150 km por hora e os vidros de algumas de nossas cabines se estilhaçaram resultando numa pequena inundação. Mas o barco resistiu bravamente e pôde voltar a salvo a Ushuaia onde foram feitos os reparos. Nossos comandantes com alma de aventureiros do Polo Sul querendo imitar Cook e Sir Francis Drake, atravessaram o canal de Bismark para nos deslumbrar com uma rota de indiscritível beleza passando por fjords e icebergs majestosos na sua presença alvíssima guardando segredos abissais. Por dois dias nosso barco percorreu esses estreitos antárticos onde vivem baleias, leões marinhos, milhares de pinguins, gaivotas, albatrozes e outros alados deslumbrantes. Para olhos tropicais como os nossos essa paisagem mais parece um sonho. O Polo Sul é um continente de toda a humanidade. Aqui têm suas bases numerosos países. Tudo que for encontrado nessas geleiras (e há muita riqueza nelas) tem que ser dividido pelos atuais ocupantes. O Crystal Symphonie está nos levando agora a Port Stanley nas ilhas Falklands de controvertida e histórica disputa entre ingleses e argentinos. É a menor capital do mundo, agora inteiramente da Inglaterra, próspera e democrática. Durante muitos dias deixamos de enviar nosso blog por problemas de contato com o satélite. Meninos, tudo isto aqui é deslumbrante mas, sem dúvida, é o fim do mundo.


Enviado por J.A. Gueiros -
27.12.2008
| 1h00m
Singrando águas agitadas

Chegamos a Punta Arenas

 

Nesta viagem a caminho do Polo Sul começo a meditar sobre o navio. Cerca de mil pessoas a bordo de uma nau convivendo harmoniosamente dentro da lei e da ordem sem precisar de advertências ou imposições, simplesmente obedecendo a um código de ética que não está escrito nem promulgado mas somente admitido por todos para que a melhor convivência possível se estabeleça neste espapço comum. O navio é um microcosmo que poderia ser um bom exemplo para o resto do mundo. Por que a humanidade não se comporta assim como os passageiros e tripulantes deste transatlantico onde convivem cerca de 40 nacionalidades falando mais de 20 idiomas? Eu estava pensando sobre tudo isso quando, de repente a voz do capitão através dos alto falantes nos avisou que teriamos mar tempestuoso antes da chegada a Punta Arenas um dos objetivos de nossa rota que visa o Polo Sul. Subitamente as pessoas se juntam em grupos segundo suas familias ou seus companheiros, começam a falar mais baixo, confessam seus medos e suas emoções mas todos, de um modo geral, se congregam dentro de uma solidariedade bonita que exclui os maus sentimentos e os preconceitos. Convocados a respeitar a força do mar e dos ventos impetuosos somos agora uma só pessoa. Um grupo frágil na crosta do planeta errante de cabeça curvada perante o absoluto. Amanhã quando atracarmos em Punta Arenas teremos histórias para contar e nos sentiremos mais humanos e certamente mais humildes.


Enviado por J.A. Gueiros -
20.12.2008
| 22h28m
Aventura no extremo do planeta

Na rota do polo sul

Neste momento estou navegando em águas geladas do Pacífico, pela costa da Patagônia a caminho do pólo sul, a bordo do valente Cristal Simphony, uma nau que Cabral e Colombo teriam gostado de pilotar. Graças à magia da Internet consigo me comunicar com o resto do mundo e sobretudo com vocês, a quem faço minhas eventuais confissões. Nesta hora penso em Saint-Exupéry que desbravou as rotas aéreas nesta parte remota do continente, como piloto de linha da Societé Latécoère, antes da Aéropostale, hoje Air France. Em “Terra dos Homens” ele nos dizia: “Mais coisas nos ensina a terra sobre nós mesmos do que todos os livros. Porque nos oferece resistência. Ao se medir com um obstáculo o homem aprende a se conhecer”. E amanhã vamos chegar a Punta Arenas. Mais uma vez Saint-Ex: “Aterrissei na douçura da tarde. Fico parado junto a uma fonte e olho as moças. Assim perto da beleza dessas moças sinto ainda melhor o mistério humano. Em um mundo onde a vida se une tanto à vida, onde os cisnes conhecem todos os cisnes, onde as flores amam as flores no leito dos ventos, só o homem constrói a sua solidão.”
Estamos numa rota para o extremo sul, a caminho do Cabo Horn, de Ushuaia e da ilha do Elefante na Antártica. Milhões de pingüins, focas, lobos marinhos, e geleiras gigantescas, aparecem à nossa frente derretendo-se ameaçadoramente num ensaio do fim do mundo. De vez em quando vamos contar o que estamos vendo, em trechos de pequenas reportagens, na medida do possível. Senão falaremos do vórtice das paixões ou da aurora boreal, ou das flores do gelo, ou das criaturas abissais. Ou poderemos simplesmente ficar em silêncio diante de tanta beleza inquietante.


Enviado por J.A. Gueiros -
15.12.2008
| 18h43m
Quase uma visão de Salvador Dali

O Universo em desencanto

 

Na metade do século passado, Allan Kardeck, o codificador do espiritismo, escreveu uma obra recomendando a leitura da coletânea UNIVERSO EM DESENCANTO, que fez a cabeça de numerosos esotéricos e ocultistas da época. Li-o quando tinha meus 20 anos e confesso que me decepcionei com a proposta do autor que não acrescentava nada de novo ao campo filosófico e insistia numa doutrinação monótona do espiritismo. O título era melhor que o livro (isso acontece em muitos casos). Mas parece que o mundo atual até poderia enquadrar-se na idéia que esse título sugere. O Universo em desencanto. Tudo que é sólido está se desmanchando no ar. As ideologias, as religiões, a moral, os costumes, a política, as teorias científicas e a terra, ou seja, o planeta, ele mesmo, suas paisagens e seres estão se derretendo, se fundindo com o magma primitivo querendo gerar novas formas e novos padrões de existência nem sempre melhores. E como dizia o sábio Lavoisier, na Natureza nada se cria e nada se perde, tudo se transforma. As mulheres estão virando homens (como a Madona), os homens estão virando mulheres (como Roberta Close), os padres tornam-se pedófilos, os juizes são bandidos, as mães tomam os namorados das filhas, os pais as estupram, elas próprias renunciam a qualquer tipo de crença ou norma, enfim, é exaustivo enumerar a desagregação que está acontecendo no mundo atual, uma onda de insensatez percorrendo a terra como um rio de lava. Isto sem falar no derretimento dos pólos, na poluição das águas, nos vulcões, maremotos e no PT (que é uma forma de vírus político degenerativo).
A recente crise financeira que gerou o buraco negro, insondável, o rombo de 30 trilhões de dólares prestes a devorar toda a humanidade, é o começo do fim. É o Universo em desencanto... Quando lemos, há tempos, o livro de Bárbara Tuchman, A Marcha da Insensatez no Curso da História, de Tróia ao Vietnam, ficamos achando que o homo-imbecilis tinha aprendido sua lição. Mas os resultados são os piores possíveis. Você conhece algum otimista por aí? Alguém que nos indique uma saída? Se conhece, me apresente, por e-mail. Talvez seja o próprio Messias. Aleluia!


Enviado por J.A. Gueiros -
11.12.2008
| 17h48m
O que pensam os leitores

A maldição de Minerva

 

O que o leitor mais espera do cronista? Um relato dramático? Uma revelação confidencial? Um tópico inédito sobre a economia ou a política? Um texto poético? Uma bela fofoca? É difícil acertar em cheio no gosto do leitor, e fazer nossa prosa coincidir com o que ele está desejando naquele exato momento. Mas quando isso acontece... é a glória! Rubem Braga, o maior de todos os cronistas brasileiros, referia-se com freqüência a esse fenômeno. Contou que certa vez, já atrasado para enviar sua matéria à redação do jornal, rabiscou, às pressas, uma nota bem trivial sobre o Jardim Botânico e esperou que o editor não reclamasse da pobreza do seu texto naquele dia. Surpreendentemente o público recebeu sua crônica com um entusiasmo fora do comum, foi um deslumbramento, chegaram centenas de cartas de admiração, e Rubem Braga pôde constatar que nunca antes em sua vida de jornalista, correspondente de guerra, diplomata e aventureiro conseguira emocionar os leitores com tanta agudeza e receber tantos aplausos quanto com aquela simples nota sobre o Jardim Botânico. Eis o mistério da fé.
Longe de mim comparar-me ao sabiá da crônica, ao Braga inimitável que a cada dia inebriava seus leitores com verdadeiras jóias literárias. Mas esse fenômeno acontece com quem escreve para o grande público e já se deu comigo. Há muitos anos escrevi um artigo sobre “o medo da inteligência” para um jornal da Bahia. Pois até hoje esta matéria está circulando pela Internet e não é raro encontrar até hoje pessoas que a lêem e comentam sempre com algumas palavras de apreço. Vejamos se vocês acham que vale a pena...

O MEDO DA INTELIGÊNCIA

Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar seu discurso de estréia na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembléia de vedetes políticas. O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal: “Meu jovem, você cometeu um grande erro”. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo, uns trinta inimigos. O talento assusta. E ali estava uma das melhores lições de abismo que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil. A maior parte das pessoas encasteladas em posições políticas é medíocre e tem um indisfarçável medo da inteligência. Isso na Inglaterra. Imaginem aqui no Brasil. Não é demais lembrar a famosa trova de Ruy Barbosa: Há tantos burros mandando em homens de inteligência que às vezes fico pensando que a burrice é uma Ciência. Temos de admitir que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados na conquista de posições. Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicentes que não revelam o apetite do poder. Mas é preciso considerar que esses medíocres ladinos, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de salvaguardar suas posições conquistadas com verdadeiras muralhas de granito por onde talentosos não conseguem passar. Em todas as áreas encontramos dessas fortalezas estabelecidas, as panelinhas do arrivismo, inexpugnáveis às legiões dos lúcidos. Dentro desse raciocínio, que poderia ser uma extensão do Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdam, somos forçados a admitir que uma pessoa precise fingir-se de burra se quiser vencer na vida. É pecado fazer sombra a alguém até numa conversa social. Assim como um grupo de senhoras burguesas bem casadas boicota automaticamente a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo de convivência, por medo de perder seus maridos, também os encastelados medíocres fecham-se como ostras à simples aparição de um talentoso jovem que os possa ameaçar. Eles conhecem bem suas limitações, sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam com uma perna nas costas, enfim, na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas, os medíocres os repudiam para se defender. É um paradoxo angustiante. Infelizmente temos de viver segundo essas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida. Como é sábio o velho conselho de Nelson Rodrigues: "Finge-te de idiota e terás o céu e a terra”. O problema é que os inteligentes brilham sem querer. Que Deus os proteja!
 

(A ilustração desta página é uma pintura de Joe Reimer representando a deusa romana da sabedoria, Minerva ou Palas Atenea dos gregos.)


Histórico

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